[ ANÁLISE ] - Heavy Metal Em Sala De Aula: A Inquisição Católica Nas Músicas Do Iron Maiden – Parte 2

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Por Diogo Tomaz Pereira *
Sobre o Autor: * Professor de História do Ensino Fundamental II, Ensino Médio e Cursinhos Revisionais em Juiz de Fora/MG; Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora, com ênfase em História Social, História Religiosa e História do Brasil Colonial (XVI-XVIII); Headbanger e fã do Iron Maiden desde criança.
SANGUE NAS PEDRAS DA CIDADELA
Em “Montségur”, temos uma letra baseada no cerco realizado a mando da Igreja Católica ao castelo ou fortificação de Montségur, entre 1243 e 1244. A construção foi um refúgio importante para a comunidade cátara que haviam perdidos suas terras.
Eu estou sozinho neste lugar desolado
Na morte eles estão verdadeiramente vivos
Inocência massacrada, o mal tomou conta
Os anjos queimavam por dentro
Séculos depois eu me pergunto por que
Que segredo eles levaram para o túmulo
Ainda queimando hereges sob nossos céus
A religião ainda queimando por dentro
[…]
A medida que os matamos, Deus saberá o seu próprio
Os inocentes morreram para o Papa em seu trono
A ganância católica e seu zelo paranoico
A maldição do Graal e o sangue da cruz
Os cátaros – um grupo considerado herege que estremeceu as estruturas do mundo cristão na Idade Média – encontraram na decadência institucional da Igreja Católica, terreno fértil para germinar e crescer. Esse grupo, tal como os antigos gnósticos e maniqueístas, acreditava que Jesus não foi um homem de carne e sangue, mas um anjo, um ser espiritual enviado a Terra para propagar bons ensinamentos que levariam à salvação. Para eles também, nós humanos somos a criação de um anjo mau e temos nossas almas aprisionadas para sofrer com os vícios e pecados de nossa raça. Para José Rivair Macedo (2005, p.3), esta aversão a tudo o que fosse proveniente da matéria e do mundo terrestre estimulava-os a encarar a morte como um prêmio, e inclusive apressar sua chegada por meio dos tormentos infligidos ao corpo.
Na cosmogonia cátara, o universo teria sido criado e se desenvolveria a partir da conjugação de duas forças opostas. Aquela do Deus bom teria sido a responsável pela criação de um mundo invisível e espiritual, enquanto a outra, do Deus mal, teria criado a natureza sensível. Como poderia o Deus essencialmente bom ter sido o criador do mundo terreno, onde existia o mal? Enquanto o cristianismo e o judaísmo explicavam a existência do mal recorrendo à ideia do diabo e do pecado, os gnósticos dualistas acreditavam que esse mundo teria sido criado pelo princípio do mal, quer dizer, Satã. Deste modo, haveriam por toda a eternidade dois mundos em presença: aquele do Deus bom, constituído por uma infinidade de seres puramente espirituais (anjos) criados por ele e participantes de sua natureza; e o mundo sensível, terrestre, material, em que reinava o Mal (MACEDO, 2005, p.6)
Os cátaros em menos de meio século foram dizimados através da força. E, principalmente, a partir dessa perseguição é que surgiu em 1231 o que chamamos hoje de Inquisição Medieval. Seus primórdios foram marcados por cortes julgadoras de causas espirituais caracterizadas por episódios violentos e controversos, mas, ainda um tímido esboço do que viria pela frente. “A ameaça que os cátaros representavam para a Igreja foi usada como justificativa para tratá-los como rebeldes sociais e marcar o início de uma era de terror, onde os inquisidores com base em um regimento diriam o que podia e o que não poderia ser feito” (PEREIRA, 2017, p.31).
Às portas e as muralhas de Montségur
Sangue nas pedras da cidadela
Às portas e as muralhas de Montségur
Sangue nas pedras da cidadela
Às portas e as muralhas de Montségur
Sangue nas pedras da cidadela
Às portas e as muralhas de Montségur
Sangue nas pedras da cidadela
[…]
Templários crentes com sangue nas mãos
Juntaram-se ao coro para matar quando mandados
Queimados na fogueira pela liberdade de suas almas
Para ficar com os cátaros para morrer e ser livre
Sendo assim, a Inquisição medieval utilizou e aplicou técnicas cruéis e violentas, dizimou comunidades inteiras, destruiu populações, matou milhares de indivíduos e penetrou em quase todos os reinos da Europa Ocidental. Uma das mulheres que era reverenciada pelos cátaros foi Esclarmond D’ Foix, também chamada de Esclarmond, a Grande. “Alcançou um papel de autoridade no catarismo ao ser elevada ao papel de Perfeita pelo bispo cátaro Gilabert de Castres, em 1204 em Fanjeaux. Passou a dirigir a Casa dos perfeitos de Dun, junto com sua cunhada Felipa e outras cátaras” (BRÁULIO, 2013 p.34). Ao iniciar o movimento cruzadista de perseguição ao catarismo, Esclarmond se refugia em Montségur. Após algumas vitórias da Igreja e um acordo de paz em 1229, dois inquisidores do Tribunal de Santo Ofício são mortos, supostamente por cátaros, e uma nova cruzada se inicia em marcha a Languedoc e à fortaleza herege de Montségur. Durante muito tempo a fortificação resistiu ao cerco, graças a suprimentos vindos do norte da Itália, entretanto não resistiu às estratégias do bispo Pedro de Amiel, “especialista em máquinas de guerra, conseguiram se apoderar de um forte que protegia a fortaleza e ali instalar um trabuco. Nos dias 1 e 2 de março de 1244, 200 cátaros foram queimados na fogueira montada pela Inquisição, acabando assim com a cruzada cátara, e anexando o sul francês à coroa nortista” (BRÁULIO, 2013, p.25).

CONCLUSÃO
Para extrair a “verdade” dos réus os inquisidores questionavam tudo, procuravam os detalhes, gestos, silêncios e suas reações. Em O Inquisidor como Antropólogo, Carlos Ginzburg nos faz lembrar que devemos os casos de casa réu como produtos de uma relação específica, profundamente desigual, com um olhar atento para captar através do texto “o sutil jogo de ameaças e medos, ataques e reviravoltas” (GINZBURG, 1989, p.10). As inúmeras possibilidades que a documentação inquisitorial oferece ao historiador são muitas. Pode-se perceber nos processos o mundo cotidiano dos colonos através das conversas nas praças, feiras, na porta da rua, bem os temas tratados e os conflitos entre o normativo imposto pela Igreja e o vivido.
A escrita da História e a reflexão sobre a escrita, a historiografia, não são estáticas nem isoladas do tempo em que são feitas. Assim, o saber histórico, é sempre passível de novas interpretações. A História, portanto, também tem uma história. O professor de História deve estar preparado, pronto a “fazer uso de estratégias e conhecimentos possíveis, e de maneira consciente, aprender a lidar com o instável, com o contraditório e estabelecer uma relação de confiança e de parceria com os demais protagonistas que compõem sua prática de ensino” (VASCONCELOS, 2018, p.77).

O que buscamos apresentar com o presente trabalho, foi uma abordagem histórico-cultural, acerca das letras de duas músicas da banda Iron Maiden e seu conteúdo histórico sobre a Inquisição Católica, tentando trazer para a sala de aula uma ferramenta – a música – que, normalmente é ligada à diversão. A elaboração desse trabalho nos permitiu perceber o enorme potencial que a utilização de canções pode ter enquanto documento histórico e como proposta didática. Foi uma forma alternativa de diversificar as práticas pedagógicas no ambiente escolar das turmas de Ensino Médio.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BIBLIA. N. T. Mt. Português. Bíblia Sagrada.
BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. “Representação, Poder e Espectáculo: o Auto da Fé”, Turres Veteras VIII. História das Festas, coordenação de Carlos Guardado da Silva, Lisboa, Torres Vedras, Edições Colibri, Câmara Municipal de Torres Vedras, Instituído Alexandre Herculano, 2006.
BRÁULIO, Thaynná Atheniense. Catarismo: Fé e Guerra no Pays d’ Oc. 2013. 38 f. TCC (Graduação) – Curso de História, Ufjf, Juiz de Fora, 2013.
FERNANDES, Maria de Lurdes Correia. “Da reforma da Igreja à reforma dos cristãos: reformas, pastoral e espiritualidade” in Carlos Moreira AZEVEDO (dir.), História Religiosa de Portugal. Humanismos e Reformas, vol. 2, Lisboa, 2000.
GINZBURG, Carlo. O inquisidor como antropólogo. Uma analogia e suas implicações. In A micro-história e outros ensaios. Rio de Janeiro: Difel, 1989.
GRANADA, Frei Luis. Guia de Pecadores. A Riqueza das Virtude e o Caminho Para Alcançá-la. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil., 2008.
HOWARD, Walter. A música e a criança. São Paulo: Summus, 1984.
MACEDO, José Rivair. Um grupo em busca de perfeição espiritual: os cátaros na França medieval. In: Ruy de Oliveira ANDRADE FILHO. (Org.). Relações de poder, educação e cultura na Antiguidade e na Idade Média: estudos em homenagem ao Professor Daniel Valle Ribeiro. Santana de Parnaiba, SP: Editora Solis, 2005.
NATIVIDADE, Nilva Terezinha da; SILVA, Nilzete de Castro; COSTA, Renilva dos Santos. Música em Sala de Aula. 2005. 127 f. TCC (Graduação) – Curso de Pedagogia, Uniceub, Brasília, 2005.
NOVINSKY, Anita Waingort. A Inquisição. 2a edição São Paulo: Brasiliense, 1983.
OLTEAN, Crina Adriana. A Denúncia ao Serviço da Fé ou da Vingança? A Delação Inquisitorial e os seus Efeitos. 2014. 154 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de História, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2014.
PEREIRA, Diogo Tomaz. Falas Nefandas: Inquisição, Blasfêmias e Proposições Heréticas no Brasil Colonial (XVI-XVIII). 2017. 160 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de História, UFJF, Juiz de Fora, 2017.
PIERONI, Geraldo. Os Excluídos do Reino. 2a ed. Brasília: Unb, 2006, p.204.
SANTA ROSA, Nereide Schilaro. Educação Musical para a 1a a 4a série. Rio de Janeiro: Ática, 1990.
SCHWARTZ, Stuart B. Cada um na sua lei: Tolerância religiosa e salvação no mundo atlântico ibérico. Bauru: Edusc, 2009.
VASCONCELOS, Hugo Rennan Cavalcanti. Temáticas Históricas nas canções da banda Iron Maiden: Diálogos entre Música e Ensino de História. 2018. 80 f. TCC (Graduação) – Curso de História, Uepb, Paraíba, 2018.
 Fonte: http://www.rockbizz.com.br/heavy-metal-em-sala-de-aula-a-inquisicao-catolica-nas-musicas-do-iron-maiden-parte-2/

https://www.rockmade.com.br/

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1 comentários:

  1. Excelente... sempre quis ter mais detalhe a respeito da música Montségur. Parabéns.

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