[ CURIOSIDADE ] - Heavy Metal Em Sala De Aula: A Inquisição Católica Nas Músicas Do Iron Maiden – Parte 1

Por Diogo Tomaz Pereira * para a Rockbizz 
 
Sobre o Autor: * Professor de História do Ensino Fundamental II, Ensino Médio e Cursinhos Revisionais em Juiz de Fora/MG; Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora, com ênfase em História Social, História Religiosa e História do Brasil Colonial (XVI-XVIII); Headbanger e fã do Iron Maiden desde criança.



INTRODUÇÃO
Atualmente na educação, uma das grandes dificuldades dos professores é de se adaptarem às novas tecnologias que surgem e que, rapidamente são absorvidas por alunos de diferentes segmentos. Essa adaptação costuma ser problemática para alguns docentes, que veem com desconfiança essas inovações ou que não querem modificar sua forma de transmitir conhecimento. A introdução de tecnologias e de seus novos modos de ensinar e aprender vêm sendo abordadas com uma grande frequência nas escolas. Esses recursos tecnológicos estão presentes em nosso dia a dia e nos permitem facilitações e oportunidades de aprendizagem, daí a importância de mediar e trazer para o ambiente escolar novos recursos que nos proporcionem conhecimentos diversificados. E como trabalhar esses recursos no ensino de História, especificamente sobre a Inquisição Católica, de modo a prender a atenção e o interesse dos alunos? O nosso objetivo nesse trabalho é analisar duas letras de músicas da banda britânica Iron Maiden, “Hallowed be thy Name” e “Montségur”, e suas contribuições para as aulas de História no Ensino Médio, buscando promover ponderações sobre a necessidade de inovações metodológicas e práticas educativas.
A música é uma excelente forma de quebrar a mesmice da sala de aula e tem ganhado cada vez mais espaço no processo de ensino e aprendizagem, principalmente após o surgimento do Mp3 e dos smartphones. Segundo Howard (1984, p.19), expressar-se musicalmente traz benefícios ao homem em todos os sentidos: ajuda no metabolismo corporal, bem como no desenvolvimento mental, lógico e sensível. Dessa forma, pensamos na música como um expressivo recurso didático, criativo e libertador, que através do seu estilo lúdico, torna mais significativo o aprender. Como afirma Nilva Natividade:
Em sala de aula supõe-se que a música possa ser utilizada para estabelecer comparações, estimular os alunos para apreender determinado conteúdo; fazer uso das letras de música para trabalhar a leitura e a escrita; para refletir em sua importância, para desinibir o aluno e resgatar sua autoestima. Além disso, a música contribui para introduzir um novo conteúdo, favorecer o desenvolvimento de uma pesquisa, trabalhar a criatividade, o ato de ouvir para completar interpretação e reflexão do que ouve, oral ou escrito, a independência, a autonomia, a crítica a avaliação do trabalho alheio, ao enriquecimento do vocabulário, rima, problemas sociais, fatos históricos, valores, temas transversais. Além disso, acredita-se que a música funcione como agente socializador e ainda, mais importante, transmitindo a cultura inter e intra povos (NATIVIDADE, 2005, p.7).
Segundo Santa Rosa (1990, p.25), devido ao constante e acelerado bombardeamento de informações que os jovens recebem, a extensão da experiência artística vem aumentando constantemente, onde cada pessoa tem necessidades e sentimentos similares ou comuns a todos, mas, dentro dessa similaridade, todos têm a oportunidade de criar a desenvolver a própria personalidade. Ainda segundo Santa Rosa,
É fundamental respeitar e incentivar a criação individual, cujo papel é o de trazer mudanças, visão nova e que o fenômeno da mudança é um desafio à inteligência crítica, para receber com tolerância e curiosidade cada expressão que está calcada na reflexão que resulta de uma consciência do mundo e isso se dá através da maneira como o ser humano percebe e reflete o mundo, questionando o “como” e o “porquê” das coisas, gerando uma inquietação, que pode se transformar em tensão criadora (ROSA, 1990, p.26).
Em cima disso, buscamos uma forma diferente de abordagem para o tema, utilizando e analisando duas músicas da banda de heavy metal. O nome da banda também pode ser utilizado como forma de introduzir o assunto em sala, Iron Maiden (Donzela de Ferro), foi inspirado em um instrumento de tortura que recebe o mesmo nome e foi utilizado pela Inquisição na Europa como forma de obter confissões dos torturados. Tratava-se de uma caixa grande para abrigar um corpo humano, feita sob medida, que não tinha a intenção de matar logo de cara, como uma guilhotina por exemplo. Era um verdadeiro invólucro, que possuía orifícios para a utilização de pregos, facas, espetos e afins, com a finalidade de ir minando a vítima até que ela confessasse ou simplesmente padecesse. Havia um orifício que também permitia o diálogo do torturador com o torturado e através dele, as partes negociavam a vida e a morte, de acordo com a situação de cada cidadão.
A banda foi formada em Londres, em 1975, pelo baixista Steve Harris e é considerada uma das principais dentro do NWOBHM. O sexteto acumula longa experiencia no desenvolvimento de canções com temáticas históricas, como a Primeira e Segunda Guerra Mundial, o Egito Antigo e a história de Alexandre, o Grande. Em nosso trabalho selecionamos as músicas “Hallowed be thy Name”, inclusa no terceiro álbum de estúdio da banda, The Number of the Beast (1982); e “Montségur”, música do décimo terceiro álbum de estúdio, o Dance of Death (2003). A primeira traz a reflexão de um prisioneiro horas antes à sua execução na forca pela Inquisição; e a segunda relata a perseguição da Inquisição aos Cátaros na Europa, especificamente sobre o cerco no castelo de Montségur, em 1244.
SE EXISTE UM DEUS POR QUE ELE ME DEIXA MORRER?
Houve um período da História em que Igreja e Estado se confundiam, fundamentalmente formando uma só entidade, com enormes poderes sobre todas as instâncias sociais, desde a vida mais reserva até às leis mais gerais. Essa concentração de poder abriu espaço para que um sistema jurídico baseado em bulas papais e decretos reais fosse criado, onde os interesses pessoais é o que predominava. Estes breves aspectos foram responsáveis pela criação de um contexto que ocasionaria na criação dos Tribunais de Santo Ofício na Europa, uma ramificação jurídica da Inquisição criada pela Igreja Católica para combater a proliferação dos hereges.
Após um período de grande repressão na Idade Média entre os séculos XIII e XIV, reapareceu adquirindo o seu ápice na Idade Moderna, principalmente em Portugal e no reino de Castela, lugares onde o catolicismo havia se enraizado de forma muito profunda e onde ambos se sentiam ameaçados por novas práticas emergentes consideradas heréticas. Sentindo-se ameaçados, “procuraram por meio de punições e reformas internas fortificar a fé em suas fronteiras” (SCHWARTZ, 2009, p. 148). Mas, tanto no final da Idade Média quanto no início da Moderna, pode-se evidenciar que nada era mais importante do que a busca pela salvação ou, como afirma Stuart Schwartz, “pelo menos era isso o que eles ouviam constantemente de padres e teólogos. A vida era curta e a eternidade interminável, e garantir a salvação da alma eram uma questão de máxima urgência” (SCHWARTZ, 2009, p. 16). Como afirma Pereira (2017),
logo, ficou estabelecida uma metodologia de medo, intimidação e controle que se mostrava eficiente. Nesse mesmo período, é possível notar uma grande importância dada ao inferno como elemento controlador; um instrumento ideológico a serviço da Igreja para limitar aqueles que escapassem ao seu controle. É importante ressaltar que essa rápida ascensão da Inquisição nos séculos XV e XVI não adveio somente pelo apoio da Coroa, mas também ao peso que o combate à heresia adquiriu na Europa católica a partir da primeira metade do Quinhentos (PEREIRA, 2017, p.15).
O antigo zelo pela busca e manutenção da “verdadeira fé” provocou inúmeras atrocidades cometidas pelos Tribunais do Santo Ofício durante os séculos de sua existência e foi através dessa autorização para prescrever “remédios adequados” no passado que se abriram caminhos para as perseguições contra os hereges “inimigos do catolicismo”. A forca e a fogueira tornaram-se os métodos de execução mais famosos da Inquisição, no entanto é importante lembrar que antes disso, era muito provável que os presos fossem vítimas de torturas nas mãos dos inquisidores. Para o Tribunal a confissão do réu não era apenas a admissão dos delitos de que era acusado, “mas especialmente um momento de denunciar cúmplices e outros possíveis hereges” (OLTEAN, 2014, p. 38).
Em “Hallowed be thy Name”, presenciamos os últimos momentos de um herege em sua cela fria, refletindo e prevendo os eventos que o esperam.
Estou esperando em minha cela fria, quando o sino começa a tocar
Reflito sobre minha vida passada, não tenho muito tempo
Pois às 5 em ponto eles me levarão para a forca
As areias do tempo para mim estão acabando
Estão acabando
Independentemente de quem você era, ricos e pobres, mulheres e homens, pessoas do campo ou do litoral, arrependidos ou não, todos em busca de apenas um objetivo: sobreviveram ao cárcere e, se for a vontade divina, serem libertos. Perante este cenário, o stress, as depressões e o desespero eram frequentes e, em alguns casos, chegavam a levar à loucura ou ao suicídio. Mas, no interior do cárcere, a vida continuava: dormir, descansar, andar, comer, bordar, coser, fiar, rezar, conversar, meditar, ler e escrever, no caso de alguns, eram atividades que preenchiam os dias passados em reclusão. Sobre as execuções, tanto em Castela quanto em Portugal, a fogueira era o método mais comum utilizado aos condenados à execução. Segundo Anita Novinsky, os réus que se recusavam confessar-se culpados eram enviados à fogueira. “Eram chamados contumazes, pois, negando, continuavam persistindo no crime. E os ‘relapsos’, que, já tendo sido condenados, tornavam a pecar Nesse caso, voltando ao cárcere, recebiam a sentença de morte, que os inquisidores classificaram de ‘relaxado à justiça secular’. Se no último momento, antes de se aplicar a pena de morte, o réu se dizia arrependido, e pedia para morrer na lei de Cristo, era primeiramente estrangulado e depois atirado na fogueira.” (NOVINSKY, 1983, p.62).
Quando o padre vem ler para mim os ritos finais
Eu dou uma olhada através
das grades para as últimas visões
de um mundo que foi muito errado para mim.
[…]
Enquanto os guardas me conduzem ao pátio
Alguém grita de uma cela “Deus esteja com você”
Se existe um Deus porque ele me deixa morrer?
[…]
À medida que ando minha vida passa diante de meus olhos
E quando penso que o fim se aproxima não me arrependo
Guarde minha alma, pois ela está prestes a voar
O próprio ato de contestação a Deus ou um simples protesto de indignação por estar prestes a ser enforcado, era considerado um delito passível de repressão pela Inquisição Católica na Europa. Se analisarmos especificamente o delito da blasfêmia no período, notaremos que era tratada pelo Santo Ofício como um menosprezo a Deus e a todas as suas instruções, através de palavras torpes que buscavam romper, quebrar e anular tudo o que era ensinado pela religião; tornava-se um pecado de “irreligião, oposto ao louvor que o homem, criatura de Deus, por sua palavra, deve a Deus” (PIERONI, 2006, p.204).
Relatada por Mateus aos discípulos, a Bíblia Sagrada ratificará sobre o perigo que a blasfêmia pode trazer aos seus seguidores: “se alguém tiver pronunciado uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado nem no presente, nem no século futuro”. Em Levítico, o terceiro livro da Bíblia, é descrito que “aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará; assim o estrangeiro como o natural, blasfemando o nome do Senhor, será morto”. Outro livro que dará uma importância muito grande ao delito é o Guia de Pecadores, obra do frei Luís de Granada, publicado pela primeira vez em 1570 e que na época foi mais comercializada do que a Bíblia. Nele, o frade escreve que “dos pecados mortais, o mais grave é a blasfêmia, muito próximo dos três pecados mais graves do mundo que são a infidelidade, a desesperança e a ira contra Deus, no absoluto e mais grave de todos” (GRANADA, 2008, p.242).
Na Península Ibérica durante o período Moderno, uma das cerimónias de maior impacto era o Auto da Fé. Um espetáculo religioso que se tornava uma festa com aspectos sacros e profanos, assistida por todas as classes sociais. “A escolha de um espaço público amplo e bem localizado visava exaltar a teatralidade inerente ao ato que, durante o século XVIII, quando a decadência da instituição se aproximou e, posteriormente, se instalou, passou a ser bem mais discreto” (BRAGA, 2006, p.35). Em Portugal, esse rito era sem sombra de dúvidas uma das maiores cerimônias públicas do Antigo Regime, praticada uma vez ao ano, como uma espécie de “prestação de contas” de suas atividades. Segundo a historiadora portuguesa Maria de Lurdes Fernandes,
a execução dos presos, geralmente interpretada pelo público de hoje como o auto-de-fé, na verdade era realizada num local distinto, de forma a marcar a diferença entre a cerimônia inquisitorial de publicação das sentenças e a cerimônia de execução dos excomungados que competia às autoridades civis. Os condenados eram acompanhados por um confessor e uma confraria, que os exortavam a morrer na fé católica. Tratava-se de um momento de grande emoção, pois os clérigos e a população exigiam um arrependimento final que diversos presos rejeitavam, sendo obrigados a parar em todos os oratórios do caminho para venerar as imagens e receber a «iluminação» no último momento. No local da execução era perguntado ao condenado se queria morrer como cristão, sendo enforcado antes de ser queimado no caso afirmativo (FERNANDES, 2000, p.128).
Os espetáculos do Auto de Fé reuniam uma verdadeira multidão. Confirmava-se a participação do povo com a promessa de que quem assistisse ao rito, teria quarenta dias de indulgências garantidas. Na noite anterior ao auto fazia-se uma procissão através das ruas da cidade, até a praça em que se havia montado o tablado. “O povo levava alimentos e quitutes como para um piquenique” (NOVINSKY, 1983, p 68).
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BIBLIA. N. T. Mt. Português. Bíblia Sagrada.
BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. “Representação, Poder e Espectáculo: o Auto da Fé”, Turres Veteras VIII. História das Festas, coordenação de Carlos Guardado da Silva, Lisboa, Torres Vedras, Edições Colibri, Câmara Municipal de Torres Vedras, Instituído Alexandre Herculano, 2006.
BRÁULIO, Thaynná Atheniense. Catarismo: Fé e Guerra no Pays d’ Oc. 2013. 38 f. TCC (Graduação) – Curso de História, Ufjf, Juiz de Fora, 2013.
FERNANDES, Maria de Lurdes Correia. “Da reforma da Igreja à reforma dos cristãos: reformas, pastoral e espiritualidade” in Carlos Moreira AZEVEDO (dir.), História Religiosa de Portugal. Humanismos e Reformas, vol. 2, Lisboa, 2000.
GINZBURG, Carlo. O inquisidor como antropólogo. Uma analogia e suas implicações. In A micro-história e outros ensaios. Rio de Janeiro: Difel, 1989.
GRANADA, Frei Luis. Guia de Pecadores. A Riqueza das Virtude e o Caminho Para Alcançá-la. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil., 2008.
HOWARD, Walter. A música e a criança. São Paulo: Summus, 1984.
MACEDO, José Rivair. Um grupo em busca de perfeição espiritual: os cátaros na França medieval. In: Ruy de Oliveira ANDRADE FILHO. (Org.). Relações de poder, educação e cultura na Antiguidade e na Idade Média: estudos em homenagem ao Professor Daniel Valle Ribeiro. Santana de Parnaiba, SP: Editora Solis, 2005.
NATIVIDADE, Nilva Terezinha da; SILVA, Nilzete de Castro; COSTA, Renilva dos Santos. Música em Sala de Aula. 2005. 127 f. TCC (Graduação) – Curso de Pedagogia, Uniceub, Brasília, 2005.
NOVINSKY, Anita Waingort. A Inquisição. 2a edição São Paulo: Brasiliense, 1983.
OLTEAN, Crina Adriana. A Denúncia ao Serviço da Fé ou da Vingança? A Delação Inquisitorial e os seus Efeitos. 2014. 154 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de História, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2014.
PEREIRA, Diogo Tomaz. Falas Nefandas: Inquisição, Blasfêmias e Proposições Heréticas no Brasil Colonial (XVI-XVIII). 2017. 160 f. Dissertação(Mestrado) – Curso de História, UFJF, Juiz de Fora, 2017.
PIERONI, Geraldo. Os Excluídos do Reino. 2a ed. Brasília: Unb, 2006, p.204.
SANTA ROSA, Nereide Schilaro. Educação Musical para a 1a a 4a série. Rio de Janeiro: Ática, 1990.
SCHWARTZ, Stuart B. Cada um na sua lei: Tolerância religiosa e salvação no mundo atlântico ibérico. Bauru: Edusc, 2009.
VASCONCELOS, Hugo Rennan Cavalcanti. Temáticas Históricas nas canções da banda Iron Maiden: Diálogos entre Música e Ensino de História. 2018. 80 f. TCC (Graduação) – Curso de História, Uepb, Paraíba, 2018.

Font: http://www.rockbizz.com.br/heavy-metal-em-sala-de-aula-a-inquisicao-catolica-nas-musicas-do-iron-maiden-parte-1/?fbclid=IwAR3mk75rey8XTnP_Wwa38PjjbNEc44vuLnORL9eNvTi5DWks66Oj8kCLb5E

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