[PREMIER GUITAR] Entrevista com Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers

No último dia 19, a revista Premier Guitar publicou uma entrevista com os três guitarristas do Iron Maiden: Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers, falando sobre The Book of Souls e um pouco sobre o jeito que cada um toca sua guitarra no disco.

Confira abaixo a entrevista na íntegra traduzida exclusivamente para o Iron Maiden Brasil.



Vocês três são guitarristas consagrados, mas vocês passam algum tempo em casa praticando?

Smith: Eu realmente pratico, principalmente antes de um disco ou turnê. Eu não posso fazer o que algumas pessoas fazem – você já ouviu falar que o Malmsteen toca por cerca de 8 horas por dia.
Isso é um longo período para fazer apenas uma coisa. Quando eu tenho tempo, eu tento aprender alguma coisa nova pra me manter atualizado. Uma coisa que eu gosto é de trabalhar em novas técnicas em materiais antigos. Às vezes Steve Harris me diz: “Por que você está mudando isso? O que você fez antes é ótimo, tem melodia, isso é o que as pessoas querem ouvir.” Mas você sabe, é preciso treinar às vezes, especialmente com coisas que você tocou muito.

Murray: Eu acho que isso é como qualquer profissão. Se você fosse um atleta, você se exercitaria, e eu acho que é o mesmo para guitarristas. Se eu apenas tocasse de turnê em turnê, eu levaria um longo tempo para pegar isso. Mas eu gosto de tocar apenas por diversão – isso não parece um trabalho para mim. Quando estou em casa, se estou assistindo um filme ou alguma coisa, eu estou com o violão comigo, algo com cordas grossas. Isso é uma boa forma de manter meus dedos rápidos.

Gers: Eu não acho que tocar é “treinar” – estou apenas tocando. Eu tenho guitarras em toda a casa. Elas estão todas afinadas de forma diferente, então onde eu estiver eu posso pegar uma e tocar sem estar plugada. Mas você sabe, na medida que você pratica, eu acho que você tem que ter mais experiência de vida. Você tem que experimentar tudo, todas as emoções e colocá-las dentro do seu jeito de tocar guitarra. Se você senta na sua sala e toca guitarra o dia todo, com certeza isso não vai acontecer.

Então como você coloca suas emoções na sua guitarra?
Gers: Eu evoco imagens e sentimentos. Para a música “The Book of Souls”, por exemplo, eu imaginei estar no México no passado e ver as pirâmides do Sol e da Lua, ao redor da Cidade do México. Todas as minhas músicas e ideias vem do que eu vi ou experimentei… um filme ou algo espiritual, ou qualquer lugar onde já estive.

Você já apareceu com algum trecho de guitarra que você pensou que estava ótimo, mas ele não soava muito “Iron Maiden” e então teve que ser cortado?

Murray: Com certeza. Isso aconteceu poucas vezes. Obviamente, a banda tem uma identidade sonora, então às vezes: “Isso é ótimo, mas não é o ideal.” Eu tenho algumas coisas que nunca faço porque isso não é Maiden. Eu sento em casa, coloco um loop de bateria, vou tendo ideias e salvando tudo no meu celular. Às vezes a ideia encaixa, às vezes não. Com o Maiden, a qualidade musical é sempre de alto nível, então você tem que pensar alto o tempo todo. Algo abaixo não vai funcionar.

Gers: Eu acho que qualquer coisa que fazemos soa como nós. Algumas vezes você traz algo que não encaixa perfeitamente, então você vai pra outra ideia. Eu acho que nunca trouxe uma ideia que eles disseram que não soava Iron Maiden. Talvez se isso fosse totalmente blues isso não seria Iron Maiden, mas provavelmente poderia ser mudado algo e funcionaria. O que eu amo no Iron Maiden é que não há restrições. Nesse álbum, há muitas facetas diferentes de música. Eu acho que Empire of the Clouds é quase um musical da Broadway. Temos The Red and the Black, que tem várias conotações clássicas e riffs Celtas. The Book of Souls tem um vibe oriental.

Falando de blues, tem sido dito que as bandas de NWOBHM se afastaram da estrutura musical do blues. Você concorda com isso? Como você encaixa parts de blues dentro dos seus arranjos e eles não são tão blues?

Smith: Na verdade, minhas influências são muito blues-rock – Pat Travers, Jhonny Winter. Eu acho fácil pegar o que eles faziam, enquanto alguém como Ritchie Blackmore, que eu adoro – você tenta tocar Highway star quando você é mais novo e isso é impossível. Então você começa com Stones, The Beatles e então você evolui pra Johnny Winter.

Murray: Eu amo blues – Albert King, Albert Collins, Buddy Guy, B.B King. Com a variedade ritmica que fazemos, seria uma tarefa impossível não misturar com um pouco de blues. Às vezes você coloca um pouco de thrash, mas se você tenta tocar boas notas melódicas, você pode misturar. Se você escuta alguma coisa nossa, obviamente há heavy rock and metal, mas também há melodias clássicas, jazz, blues – isso tudo encaixa.

Você já trabalharam com Kevin Shirley antes. Ele gosta de fazer as coisas rapidamente.

Murray: Sim, eu adoro isso nele, na verdade. Eu acho ele fantástico.

Smith: Veja, eu tenho impressões misturadas. Eu dou ao Kevin alguma dor de cabeça de vez em quando por causa disso, de trabalhar muito rápido. Eu tenho alguns amplificadores no estúdio, eu vou me divertir com eles e ele diz: “Vamos lá. Vamos resolver isso.” Eu quero ver como os amplificadores soam – eu quero me inspirar. Kevin é mais “plug isso e eu vou gravar você”. Sem muita complicação. Geralmente eu faço um solo e ele diz: “Isso é ótimo. Isso soa como você.” Então eu digo: “Eu não quero soar como eu. Eu quero soar melhor do que eu!” Nos desentendemos um pouco, mas eu o adoro. Ele tem uma personalidade forte.

Antigamente vocês passavam meses gravando e mixando. Agora há alguma pressão para fazer tudo funcionar na primeira tentativa?

Murray: Não, na verdade é exatamente o contrário. Eu vou falar pra você, eu realmente adoro trabalhar com Kevin e eu adoro o quão rápido ele trabalha, toda a tecnologia que ele usa. Antigamente, quando usávamos fitas e fitas, tudo demorava muito – isso matava a espontaneidade. Agora tudo é rápido. Quando nós vamos lá gravar uma música, estamos todos tocando juntos, Bruce está cantando, e assim fazemos a base. Depois disso nós vamos para os overdubs, eu vou para a sala de controle, sento perto do Kevin e vamos em cada música parte por parte, mudando coisas, fazendo solos e ajustando notas. Kevin é fantástico: “Isso precisa melhorar. Essa parte, olhe isso.”
E se você fizer bagunça, nós podemos mudar algo de lugar e fazer funcionar. Eu faço três ou quatro solos, e então Kevin diz: “Ótimo! Isso é o suficiente.” Então eu vou pegar uma xícara de chá, volto e ele dá um play no que ele acabou de fazer. Então eu vou pra casa e aprendo isso para a próxima turnê.

Smith: Temos três guitarristas, então é difícil para todos irem lá fazer todos esses ajustes. Se Dave está sentado lá fazendo um solo em 20 minutos, eu não vou demorar cinco horas fazendo o mesmo. Não dá pra fazer isso. Geralmente os primeiros takes são os melhores. Se existe algo que realmente não gosto, aí vou lá e ajusto. Talvez no passado perdíamos mais tempo refazendo algo, mas hoje em dia não.

Você tem alguma forma específica de fazer os overdubs? Isso é mais ‘científico’ do que tocar em um quarto com um outro cara, não é?

Murray: Sim, com certeza, mas não é como estar em um laboratório vestindo um jaleco branco. Eu vou lá, plugo a guitarra, coloco um Uni-Viber ou uma Distorção +, talvez a flanger, e então eu apenas deixo fluir. Então você não precisa sentar e cruzar suas pernas em posição de lotus e fazer “Ohmmmm” (risos). Basicamente isso, tomar algumas xícaras de café, uma dose de adrenalina e então faço isso.

Falando de pedais, Janick, você não é um grande fã.

Gers: Para mim, eles abafam a guitarra. E mais, sempre sinto isso um pouco mais fácil. Eu prefiro olhar para as melodias e encontra outra forma de fazê-las mais interessantes, prefiro isso do que simplesmente apertar um botão. Eu não tenho problemas com isso, embora há alguns guitarristas que usam pedais em vez de tentar fazer algo diferente. Isso não é comigo. Eu prefiro desligar a guitarra, deixar o amplificador fazer barulho e ajustar o som desse jeito. Tipo antigamente, eu acho.

Smith: Sim, mas você ainda tem racks – delays e todas essas coisas estão nos racks. Para mim, eu gosto de ter tudo em um só lugar algo que ainda não usei em algum álbum antes. Uns álbuns atrás eu fiquei louco com o Whammy pedal. Dessa vez eu trouxe um Eric Clapton Crossroads pedal – poucas funções que soam muito bem. Às vezes é divertido deixar o som levar você a algum lugar. Passar uma manhã passeando pelos efeitos e ter uma ideia para uma música. Eu faço isso.

Você usou algum amplificador novo em The Book of Souls?

Murray: Sim, na verdade, eu comecei tocando com um Fender Super-Sonic 100 2x12 – você sabe, esses amplificadores soam absolutamente sensacionais. Colin, meu técnico de guitarra, trouxe um Victory amp – era uma novidade para mim. Eu usei um no fim do álbum e achei excelente – muito old school.

Smith: Eu mudei. Quando voltei para a banda, estava usando um ADA com um power amp. Então eu mudei para o Marshall JMP-1s, que Janick e Dave estavam usando. E então eu pensei que eu deveria fazer diferente, então voltei para os cabeçotes Marshall. É um som diferente.

Gers: Eu uso Marhshalls. O que eu estava usando no estúdio não era um Marshall padrão – foi personalizado na Marshall por Mike Hill e outros caras. Ele tem basicamente 100-watt e um front-loaded rack. Eu sou muito direto com isso. Dessa forma dá pra ter mais controle sobre ele. Eu gosto de manter o som real.

Dave, você disse “tubey” antes. É isso que você faz no primeiro solo de Speed of Light?

Murray: Eu acho que faço o primeiro solo e Adrian está tocando muita melodia. Uso o Super-Sonic nele, eu acho. Eu tenho que ser sincero: Eu peguei o álbum cerca de um mês atrás e tenho tocado muitas vezes, então eu ainda estou ouvindo novos detalhes que eu mesmo não lembro de ter tocado. (risos).

Adrian, eu li que você foi inspirado por Erick Johnson em algumas partes de Speed of Light. Você disse também que você redescobriu a escala pentatônica, que você usou na música.

Smith: Sim, anos atrás eu tentei descobrir um fraseado do Eric Johnson, mas não consegui nem mesmo chegar perto. Ele é brilhante. Dizer que eu pareço Eric Johnson é um pouco presunçoso, eu acho. Joe Bonamassa é outro – as coisas que ele faz, aquelas pentatônicas, é simplesmente incrível.

Janick, deixe-me perguntar uma coisa sobre Shadows of the Valley que você escreveu com Steve Harris. Tem umas lindas partes harmônicas caminhando para o fim. Tem alguma forma específica que você gravou aquelas partes?

Gers: Quando tem três guitarras em harmonia, se Adrian fez a música ele pode definir tudo. Se é a música é minha eu faço todas as harmônicas. Então depois, quando vamos fazer a música ao vivo, nós tentamos as harmônicas entre nós 3.

Adrian, o riff de Death or Glory é sensacional. Quando você cria um riff, como você sabe que o riff é o certo?

Smith: Sim, ele é interessante. Tem uma intro e então um segundo riff principal – eu mudei isso um pouco e fiz duas vezes, porque originalmente isso era tipo Thin Lizzy. Eu fiz isso soar mais Maiden. Eu estava apenas tentando escrever algo que soasse imediato, mas com um grande refrão.



Vamos falar sobre Empire of the Clouds. Como vocês se organizaram para uma música de 18 minutos?

Murray: Quando fomos ao estúdio, Bruce estava tocando melodias no piano e nós começamos a aprender isso apenas ouvindo ele tocar. Ele diria: “Oh, claro, eu tenho uma ideia para essa parte e essa parte.” Então, basicamente, quando sentamos para a primeiríssima parte, eu apenas escrevi algumas notas e nós juntamos. Bruce tocando e nós tocando juntos ao vivo. Nós gravamos isso, porque sempre devemos documentar tudo e guardar. Nunca se sabe quando você precisará. Nós fizemos a música partes porque, você sabe, 18 minutos é muito! (risos)

Smith: Nós fizemos nossas partes em pedaços e frequentemente Kevin e Bruce diziam “Não, isso é muito blues. Tente um pouco mais clássico.” Isso evoluiu e se tornou algo excelente. Foi muito divertido.

Quando você ouviu essa música pela primeira vez, você imediatamente teve uma ideia do que ela iria ser?

Murray: Eu tive. Eu estava com uma Les Paul ligada diretamente no amplificador. Eu tinha um set e baixei o volume. Eu acho o mesmo sobre os outros caras; nós estávamos apenas brincando com as guitarras. Com a música pronta, aumentamos o volume e eventualmente fizemos as sequências. Eu diria que isso foi espontâneo.

Antes de começar a turnê no próximo ano, eu tenho que sentar e aprender aqueles solos. Eu terei que reaprender todas as músicas. Se você está tocando algo no estúdio, não é algo que você tem necessariamente que passar um ano treinando. Isso apenas acontece no momento. Mas eu acho que é aí onde está a magia: é algo que você pega no ar.

Dave, você mencionou que estava com uma Les Paul. Eu suponho que você estava com Strats também.

Murray: Oh, sim. Eu tenho algumas. Eu usei o modelo com minha assinatura em todas as músicas. Eu troquei  as guitarras. Tocar algumas melodias e bases na Strat e então talvez tocar algo mais na Les Paul. Eu usei a Les Paul com um Floyd Rose na maioria das músicas. A Strat com minha assinatura é realmente boa, uma guitarra fácil de tocar. Muitas guitarras não são fáceis de tocar. Eles fizeram essa muito confortável para tocar, então eu estou muito agradecido.

Janick, e você?

Gers: Tinha algumas 3 ou 4 Strats – eu tenho umas Strats Fender feitas para mim – e eu estava usando elas em diferente vezes. Eu não conseguiria dizer exatamente quais, para ser sincero.

E Adrian, você está tocando sua Jacksons signature e a Les Paul?

Smith: Exatamente. mas vou te contar, a maior coisa, não importa com qual guitarra estamos tocando, é importante se atentar a afinação. Temos três guitarristas na mesma faixa e você pode perceber um som diferente.

Quando vocês estão tocando ao vivo, vocês olham as mãos uns dos outros? “Ele está tocando pesado, então vou tocar mais leve” – acontece esse tipo de coisa?

Murray: Não é o caso de ficar olhando um pro outro. É mais sobre a dinâmica da música. Então talvez um deles está tocando um pouco mais pesado, mas então o outro deve estar tocando algo mais leve e aquilo melhora a dinâmica. Basicamente, nós estamos tocando uma seção da música, mas estamos tocando partes diferentes e elas todas funcionam bem juntas.

Gers: O truque é fazer as guitarras soarem com um único som poderoso. Ouça as músicas e você pode perceber isso. Sem uma daquelas guitarras lá, isso não soaria o mesmo.

Smith: Eu tento ser preciso. Você está no palco com os caras e você está os ouvindo. Na maior parte das vezes isso funciona sem muito esforço.


O QUE CADA GUITARRISTA USA DE EQUIPAMENTO

Adrian Smith
Guitarras
- Gibson goldtop Les Paul
- Jackson Adrian Smith Signature San Dimas DK
- Jackson King V

Amplificadores
- Marshall JVM410H
- Blackstar Series One 104EL34, 1046J6, and H-T5

Efeitos
- Boss DD-3 Digital Delay
- Boss CH-1 Super Chorus
- Boss CS-3 Compression Sustainer
- Ibanez TS808 Tube Screamer
- DigiTech Eric Clapton Crossroads
- Dunlop Cry Baby Wah
- Duesenberg Channel 2 overdrive/distortion

Cordas e Palhetas
- Content


Dave Murray
Guitarras
- Fender Dave Murray signature Stratocaster
- 1960s Fender Telecaster
- 1970 Fender Stratocaster (pertenceu anteriormente a Martin Barre do Jethro Tull)
- Gibson Les Paul Classic 1960 Reissue
- Gibson Les Paul Axcess Standard with Floyd Rose
- Gibson Memphis ES-Les Paul

Amplificadores
- Victory amps
- Fender Super-Sonic 100-watt 2x12 combo

Efeitos
- MXR Uni-Vibe Chorus
- MXR Distortion +
- TC Electronic Flashback Delay
- TC Electronic Corona Chorus
- Dunlop Cry Baby Wah
- Dunlop JD-4S Rotovibe
- Wampler Clarksdale Delta Overdrive
- Phil Hilborne Fat Treble Booster

Janick Gers
Guitarras
- Fender Stratocasters, incluindo uma black Strat presente de Ian Gillan do Deep Purple

Amplificadores
- Marshall JMP-1 preamp
- Marshall 9200 power amp

Efeitos
- Marshall JFX-1 multi-effector

Entrevista completa em inglês: http://www.premierguitar.com/articles/23207-iron-maiden-out-of-thin-air?page=1

Sobre Rubens Sampaio

Rubens Sampaio

1 comentários:

  1. Sensacional, três músicos excelentes e modestos, o alto grau de profissionalismo e comprometimento de seus integrantes explica o grande sucesso do maiden.
    Up the Irons! See you on Sampa 26/3.

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