[ IRON MAIDEN ] - Renovando a velha arte de compor e tocar músicas

RIO - A chegada de um novo álbum do Iron Maiden é sempre garantia de que alguma terra será movida: com 46 anos de carreira, o grupo inglês não é somente um patrimônio do heavy metal, mas um artista de números superlativos – mais de 100 milhões de discos vendidos, mais de 2 mil shows em 63 países, turnês vistas por mais de 2 milhões de pessoas cada... E mais que isso: o Iron é uma verdadeira entidade do rock, cujo mascote, o morto-vivo Eddie, estampa das capas de seus discos a bandeiras de torcidas organizadas de futebol. Um ícone pop, além de tudo.

Atração confirmada do próximo Rock in Rio (festival do qual já se apresentou quatro vezes – inclusive, na edição inaugural, em 1985), o grupo está de volta ao disco esta sexta-feira com “Senjutsu”, seu 17º álbum de estúdio, do qual os fãs esperam duas coisas apenas: 1) Músicas novas, boas para ouvir em casa e cantar nos shows. 2) Que eles não deixem de ser Iron Maiden de sempre. A boa notícia é: o grupo cumpriu a meta, com sobras.

Até os fãs mais exaltados admitem que o Iron Maiden fez alguns discos ruins, cansados. Os anos 1990, em particular, não foram gentis com a donzela de ferro. Mas desde 1999, quando voltaram o cantor Bruce Dickinson e o guitarrista Adrian Smith, ela tem seguido uma trajetória sem atropelos, que possibilitou, inclusive, conquistar uma popularidade ainda maior que a dos seus anos dourados, os 80. Diante da alta mutabilidade das modernas bandas do rock, o Iron se apresentou como um bastião de integridade – a sua grande virtude em “Senjutsu”.

Capa do álbum "Senjutsu", do grupo inglês Iron Maiden Foto: Reprodução
Capa do álbum "Senjutsu", do grupo inglês Iron Maiden Foto: Reprodução

Depois do Egito de “Powerslave” (1984) e dos maias de “Book of souls” (2015), agora é a vez de o Japão feudal inspirar o grupo em um disco. Um Eddie samurai é o que o Iron Maiden traz de diferente desta vez – porque as composições seguem os mesmos padrões desde que o grupo voltou às boas com si mesmo no disco “Brave new world” (2000): as novas músicas têm um pouco menos do lado punk e feroz dos primeiros discos e um pouco mais do progressivo que o grupo desenvolveu a partir do clássico álbum “Seventh son of seventh son” (1988).  

Mas mesmo que as músicas de “Senjutsu” tivessem sido criadas por algum dispositivo de inteligência artificial, uma máquina treinada para fazer canções do Iron Maiden, não dá para passar por cima do fato de que os músicos estão mais afiados do que nunca – de Bruce Dickinson (63 anos, recuperado há seis de um câncer na língua) a Nicko McBrain (o baterista, de 69). E ajudou bastante o trabalho de Kevin Shirley (produtor da banda desde 2000), que mais uma vez pôs a rudeza dos timbres de baixo e bateria para contrastar com a plasticidade das guitarras, gerando uma sonoridade cheia, ideal para essa banda que nunca é pequena ou sutil.

A faixa-título, que abre “Senjutsu”, é um bom termômetro para o disco: épica, com bateria feroz e tribal, refrão grudento e tintas prog no teclado. Bruce conta com muita convicção as suas histórias fantásticas, que bem caberiam num role playing game, e a banda vai atrás – agalopada em “Stratego”, mais lenta e dolente em “Darkest hours” e com requintes de trilha para western em “The writing on the wall”, o tipo de canção mais palatável para o público em geral, pensada como single, como se identifica também em “The time machine”.

Mas o Iron Maiden sincero, que se espalha sem cerimônia pelos 82 minutos de “Senjutsu” (um álbum duplo em CD e triplo em vinil) é o de “Lost in a lost world”, de quase 10 minutos, em que a banda alterna cadências, Bruce faz vozes diferentes a cada parte e os fãs ficam esperando com ansiedade a hora de bater as cabeças. Não fosse bastante, a parte final de “Senjutsu” é composta por três pequenas odisseias, compostas pelo baixista Steve Harris: “Death of the celts” (com 10m20 de duração), “The Parchment” (12m39) e “Hell on Earth” (11m19), nas quais a banda esgota (e, por vezes, até expande) o vocabulário constituído em mais de 40 anos.

“Senjutsu” pode ser progressivo de menos para os apreciadores do prog e prog demais para os conservadores do metal. Mas não importa: é o Iron Maiden. Ainda hoje, o grupo que melhor e com mais entusiasmo consegue tocar a música do Iron Maiden. 

 fonte:https://oglobo.globo.com/cultura/em-senjutsu-iron-maiden-renova-velha-arte-de-compor-tocar-musicas-de-iron-maiden-25182801

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