[IRON MAIDEN] - Você sabe o que aconteceu no show em Hammersmith 1982?

A data era 20 de março de 1982 durante uma época em que o país era o berço fecundo do Rock´N Roll e o fenômeno pós Beatles enchia os corações e mentes de jovens ingleses à nova tendência musical: O Punk e o Metal.

Mas possivelmente a grande influência de fato para o Iron Maiden era o que se herdou do Progressivo de algumas bandas como UFO, Jethro Tull, Deep Purple; que abrira uma nova consciência que culminaria na então NWOBHM (New Wave of The British Heavy Metal), fundindo então suas características.  

Era explicito como a força desse novo estilo, seria capaz de contestar alguns padrões mais tradicionais e rígidos de uma Grã Bretanha em pleno turbilhão politico vivenciado pela Dama de Ferro Margaret Thatcher, que havia se elegido primeira ministra há três anos antes.

O registro disponível no Youtube (com uma qualidade excepcional de áudio e vídeo) me levou a registrar emocionalmente o que penso que poderia ter sido aquele momento. Se você reparar cada detalhe, dará de encontro à imagem impressionante que te leva a um passado que provavelmente não foi o seu, mas você se sente como se estivesse ali.



O QUE PODE TER ACONTECIDO?

Jovens de coletes, calças jeans (a eterna vestimenta do metal) e cabelos grandes em tamanhos tímidos chegam ansiosos para a noite de estreia de The Beast on the Road, turnê remanescente do álbum The Number of the Beast.

Os cabelos dos protagonistas eram ainda mais longos do que dos jovens fãs e representavam a perfeita rebeldia diante dos olhos dos “mascadores de chicletes”, que estampavam peles brilhantes e adolescentes, carregadas de oleosidade e espinhas.

Ostentados pela camisa que já estampava os Eddies de Derek Riggs, todos pareciam orgulhosos com seus coletes bordados com as insígnias da banda.

Como um sol que irradia no meio do palco, incríveis canhões de luz coloridos por celofane vibram a melhor composição de luz para o palco da época e então já se ouve a música de introdução da noite: 



Murders on the Rue Morgue
Eu não estive lá, mas é como eu fosse alguém ali da plateia. Quase como um espirito. E é o que gostaria de fazer. Gostaria de voltar no passado e viver esse momento. Então eu escrevi tudo que senti ao assistir esse show. Espero que gostem...

“Clive Burr com o Eddie de Killers acima de sua cabeça, retumba sua bateria para abertura do show: Todos entram. Cada um de um lado do palco. Bruce Dickinson corre em direção ao seu microfone e já encara sua plateia cantando. O microfone é como o mastro de um futuro rei... Assim começa a incrível coreografia de instrumentos, artistas, plateia e luzes!”

O franzino Bruce, com calça de elastano, camisa justa, coletinho e cabelos aloirados já encara sua plateia e deslancha sua incrível voz de tenor nato. Seus braços possuem uma espécie de munhequeira grossa de couro e metais cravados. Era um dos símbolos do rock! A sua capacidade de dar saltos e parar de pernas abertas, identificava sua postura coreográfica que acompanharia sua carreira nos shows.
Enquanto isso, o jovem Murray destila sua guitarra (uma vez de papel e agora mais que real) com sua veia rock n roll e fazia suas batidas de cabeça com a cabeleira loira e o corpinho magro. No final da música Steve Harris metralha seu publico com vigor; aquilo se repetiria eternamente. Adrian ainda tímido compõe a cena. Temos a introdução feita.



“How are you doing Hammersmith? This song is called Wratchild” – Grita Bruce

Wratchild é um grito de hino comemorado com muita energia, por Bruce e o resto da banda.

Run to the hills é um misto de energia cósmica da guitarra de Dave Murray e a alegre motivação de Bruce que parece contar uma história para seu público.

Children of the Damned surge na escuridão, iluminada somente pelos focos de luz inferiores na intensa fumaça de gelo seco, trazendo certa sobriedade aos baixos do miudinho (em estatura) Steve Harris; que parecem sair da alma.

No auge da noite surge a passagem bíblica que inaugura o fenômeno:

The Number of The Beast.
Uma incrível iluminação em vermelho parece tingir de sangue ou de algo demoníaco, o palco da Donzela. Tons de verde surgem para ornamentar a visceral e uma das maiores e mais importantes músicas da banda. Uma voz que parece surgir das profundezas de qualquer lugar que você possa imaginar narra o inicio da canção e pinta-se o palco de branco ou luz natural.

"Woe to you, Oh Earth and Sea... For the Devil sends the beast with wrath, because he knows the time is short...

Let him who hath understanding reckon the number of the beast for it is a human number... It's number, is Six Hundred and Sixty Six..."


Tudo vira uma grande boate do inferno.


A próxima música é Another life do álbum killers e a própria Killers

Como se não bastasse aquele deleite sonoro de Bruce, Clive, Steve, Adrian e Dave, eis que surge o som do momento, inaugurando o ápice instrumental de Adrian Smith com seu riff “Acacia avenue”, sobre a prostituta Charlotte the Hallot.

22 Acacia avenue é o mito da dama dos prazeres, da casa da luz vermelha, da boemia de Londres como em todos os lugares do mundo. Especialmente para aqueles rapazes que haviam acabado de sair da adolescência.

Num é que durante o show, uma mulher loira de cabelos curtos, cinta liga, lingerie vermelha, shortinho e casaco de couro, surge no palco, senta-se e ergue uma de suas pernas seduzindo todo mundo?

Ela rebola e dança pra plateia enquanto Bruce canta e encanta, dando energia maior aos seus hormônios. Nem Dave resiste o seu jovem olhar dividido entre o sentimento de tocar e admirar aquele corpo feminino num desfile de total intensidade sexual.

O “câmera man” foca na plateia. E aqueles rapazes diante do espetáculo que só o rock n roll pode oferecer, com certeza foram à tona em suas fantasias e todos ficam mesmo em êxtase. As cabeças rolam sem se soltarem de seus pescoços.



Com um linguajar britânico quase incompreensível, Bruce comunica-se com sua plateia no misto de apresentador tímido ao mesmo tempo corajoso anfitrião. Eis que anunciam “Total Eclipse”, umas das minhas canções lado B mais deliciosas.

Nosso incrível Frontman levanta a plateia com palmas. A música se dissipa no ar.

Dave e Adrian parecem ter ensaiado uma coreografia enquanto tocam suas guitarras.

Dave parece enlouquecer com seu solo e Adrian responde com harmonia a intensidade de seu colega.
Nosso querido Clive tem uma postura de tremenda sintonia e Bruce é mesmo a cereja do bolo.
Steve é o grande Patrão e está dominando tudo com seu baixo

Uma grande canção surge. É um longo solo de Transylvania. Creio que é certamente uma grande oportunidade para nosso vocalista recuperar a voz depois de chegar aos seus extremos nas primeiras músicas.

Ouvimos então às escuras a voz de um seriado e Clive inaugura seu potencial dinâmico.  Acho que nunca antes o bater das cabeças dos headbangers havia sido tão intenso. Tanto quanto no palco, quanto na plateia.




The Prisioner *

"We want information, information, information. Who are You? The new number two. You are number six. I'm not a number ya. I'm a free man! Hahahahaha!"

As guitarras de Adrian são de fato bem orgânicas.

Todos os integrantes parecem explodir testosterona no palco. É uma juventude diante de outra. É um Bruce com sotaque local, conectado aos seus vizinhos, com sua terra e seus colegas. É uma Inglaterra com tantas possibilidades!

É um grupo que começou pobre e com dificuldades, mas que teve aquela imensa sorte de encontrar as pessoas certas nos lugares certos, e de palco em palco, de show em show serem cada vez menos de seu público local, para serem conquistadores de mundos de além-terra e além mar.

Será que eles imaginavam a longevidade de suas canções e a dimensão geográfica de suas conquistas? Iron Maiden é mais que uma banda. Sem dúvida. É um grupo de navegadores que velejam em suas musicas no mar da arte.

Foram desbravadores, corajosos e lançaram suas embarcações no mar, sem medo do destino, nem medo do insucesso. Na verdade não se preocuparam com o universo mediático e se reafirmaram como uma banda que não buscou promoções externas.

Hallowed be thy name então surge como uma simples continuação.

O retorno não está bom para Bruce.

Mas essa sempre seria uma das mais importantes músicas da banda.

Depois de escalar o cenário e quase de olhos fechados, ele começa o hino... mas é na subida de tom “running ooooooooo” que Bruce percebe que o som está baixo demais para seu alcance vocal e então ele faz um contato visual com o manager ou com o técnico de som.
Mas o final da música revela que de fato ele é um dos mais importantes cantores de rock e metal do mundo.

Quando Iron Maiden começa, música título do primeiro disco, a energia está em êxtase.
Se houve uma época que Metal era símbolo de bater a cabeça e balançar a enorme cabeleira, essa época era o inicio dos anos 80. 

De repente, depois de algum tempo de execução as luzes meio que se apagam. Dois sujeitos vestidos de diabo e portando um tridente surgem das extremidades do palco. E com uns 3 metros de altura, surge o Eddie.

Bruce encerra – I want you, and you, and you...all of you”



Todos aqueles rapazes estão em êxtase. Não há dúvida que aquilo era mais que um show de rock. Um espetáculo de luzes, de artistas, de sons.

Bruce domina a plateia. Já é como um rei clamando para seus súditos.

É a vez de Phanton of the Opera....Eternizada na voz de Paul Dianno, Bruce criou sua maneira de executá-la!

Sanctuary acontece. O bastão do microfone é como um cajado que ele aponta para plateia. Ele brinca com o pedestal, gira e o faz de cajado. É impressionante quando ele ao encerramento de uma parte da música, após a execução dos instrumentos, sua voz se mantem tão alta e limpa, tão linear.
A plateia já está em explosão! Bruce abraça a Steve...Ainda eram bons amigos. Bruce era bem intimo dos seus colegas, o que tornava tudo ainda mais coeso. Clive e Steve tem uma potência assombrosa.

Bruce solta: "GOD BLESS YOU, GOOD NIGHT" - Deus os abençoe!

Running Free  e Prowler destilam o mel que adoça a todos os presentes. Assim se encerra esse grande momento...São as duas pérolas finais...


O QUE ACONTECEU?

Foi a inauguração de BRUCE DICKINSON na banda e mais um desses rituais que vemos em grandes “igrejas” do rock. Salas, arenas, estádios ainda por mais de 40 anos “pegam fogo” com tamanha grandeza desses mágicos artistas que com suas músicas encantam milhões de pessoas no planeta. Continuem encantados, pois ainda vem mais shows e álbum por ai!


UP THE IRONS!


O video:



*The Prisioner é baseada em uma série de TV dos anos 60, estrelada por Patrick McGoohan. Na série, o agente abandona o serviço secreto britânico e é preso quando chega a casa. Ele é levado para "The Village", onde os nomes são trocados por números. Ele é o número 6. Na medida em que o sujeito avança na hierarquia, seu número diminui até o 1, que manda no lugar. *

Sobre Verônica Mourão

Verônica Mourão

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