Iron Maiden envelhece com espantosa dignidade no espetacular “The Book of Souls”

Por Regis Tadeu para o Yahoo.Noticias

Não sou adepto de escrever sem critério. Como jornalista e entusiasta do estudo de como a música influencia a vida das pessoas – para o bem e para o mal -, não acompanho a ansiedade que domina o fã, este eterno idiota que condiciona sua vida àquilo que acontece com seu artista favorito.



Neste espaço, já escrevi a respeito de tudo e escolho meus temas como faço na hora de decidir qual camiseta vestirei no dia: baseado no meu humor, na minha vontade e nos acontecimentos ao meu redor. Fazer um texto pessoal, com minhas impressões, é tão ou mais difícil quanto me disseram quando comecei a me aventurar a escrever na primeira metade dos anos 90. Principalmente para enfrentar a manada de bovinos acostumada com críticas falsamente elogiosas e com frases retiradas dos releases enviados pelas próprias gravadoras.

Por isto, gastei muito mais tempo do que imaginava ao dar a mim mesmo a missão quase impossível para a grande maioria das pessoas que ouve álbuns no planeta: ouvir algo sem comparar com as obras anteriores de uma mesma banda e artista. E hoje, para mim, é o dia de escrever a respeito de um álbum que é o mais recente exemplo de como é possível envelhecer artisticamente com dignidade. Mais do que isto: propor novas ideias fazendo exatamente o mesmo som, algo raríssimo dentro do universo do metal. E foi exatamente isto que o Iron Maiden conseguiu fazer no primeiro álbum duplo de estúdio de sua carreira, The Book of Souls.

Foram necessários pouco mais de cinco anos para que a banda resolvesse nadar contra a corrente e soltasse um trabalho denso, sem qualquer traço de diluição e facilidades para quem ouve música nos dias de hoje como se fosse a trilha para outras tarefas do cotidiano. Obedecendo a prazos, mas seguindo seu próprio ritmo, Steve Harris - o baixista e líder incontestável da banda - comandou a resolução de um antigo problema que, cedo ou tarde, reaparece em seu horizonte, que é a percepção de que cada novo álbum do grupo acaba conflitando com as impressões causadas pelos discos anteriores. Este papo acabou em The Book of Souls.

Para ser exato, a canção que abre o álbum, a extraordinária “If Eternity Should Fail”, é daquelas que explicitam algo que o fã “babão” nunca percebeu: que o rock progressivo dos anos 70 exerce uma poderosa influência na cabeça de seus integrantes, principalmente aqueles que apresentam seus papéis como compositores dentro do grupo. Com um arranjo brilhante, é daquelas canções fadadas a se tornarem épicas não apenas dentro do repertório do grupo, mas também dentro de todo o universo do gênero. O mesmo vale para a espetacular e acelerada “Speed of Light” e a ótima “When the River Runs Deep”: vão virar clássicos com o passar dos anos!

Colocando um novo projeto em pé, Harris sabia que precisava de canções vibrantes e que funcionassem nos palcos durante as longas turnês. Por isto, tratou de compor pequenas maravilhas como “The Great Unknown” e os mais de treze minutos “The Red and the Black”, esta última com direito a um pequeno solo de baixo em sua introdução e os clássicos “ôoooos” em seu refrão. Só que aquilo que poderia soar cafona acaba fazendo parte do conceito sonoro do álbum como um todo. Algo que só discos clássicos permitem…

Mesmo que fosse viável profissionalmente manter uma postura artisticamente repetitiva, o disco 2 mergulha em uma pradaria sonora que aproxima o grupo de um gigantismo que guarda certas semelhanças com o já citado rock progressivo setentista e até mesmo com a música erudita.

Há uma forte vibração narrativa em cada uma das canções, notadamente em “Shadows of the Valley” – mesmo com o autoplágio de “Wasted Years” na introdução -, em “The Man of Sorrows” e na faixa título - presente no disco 1 -, além da acentuada predileção por incutir diferentes partes dentro dos arranjos, o que está explícito nos monumentais dezoito minutos de “Empire of the Clouds”, uma suíte metálica com piano e orquestra presentes de maneira sublime. Já “Death or Glory” e “Tears of a Clown” dão ‘bandeira’ do quanto todo mundo na banda gosta dos discos antigos do Thin Lizzy.

Encerrei o trabalho de ouvir este Book of Souls três vezes consecutivas com a certeza de que a banda tem tudo para manter um ritmo adequado de produção ao mesmo tempo em que lida com a realidade de cada um de seus integrantes – o vocalista Bruce Dickinson recuperou a saúde ao debelar um câncer na língua que poderia se espalhar pelo restante do corpo – e aceita um novo desafio profissional que começa imediatamente. Se eu disser que ouvi mais este recente álbum do que os quatro discos da banda – Brave New World (2000), Dance of Death (2003), A Matter of Life and Death (2006) e The Final Frontier (2010) - será um evidente exagero, mas não lembro de ter ficado tão impressionado com eles.

A banda foi durante um bom tempo a principal merecedora da atenção de quem acompanha a música com a devida atenção e o discernimento que separa os apreciadores dos tolos. A partir de agora, tudo pode acontecer. Inclusive Harris se dar ao direito de parar de jogar enquanto ainda se sente um vencedor ao lado de seus parceiros. Se isto acontecer depois da próxima turnê, ele e seus amigos vão sair por cima e diretamente para as páginas da História da Música com letras maiúsculas.



REGIS TADEU

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

Sobre Iron Maiden Brasil

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2 comentários:

  1. Parece que a crítica está sendo uniforme quanto a análise do novo álbum... No UOL, a manchete até dava a impressão de ter adotado uma conclusão negativa a respeito, mas o teor da análise até se manteve positiva a respeito. Gostaria de saber como está as demais análises pelo mundo. Sou fã, não fanboy da banda. Sou fã e também crítico. Críticas boas ou negativas, gostaria de lê-las.

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  2. Aqui foi a melhor crítica que já li. Muitos ficam comparando com as obras passadas, sempre dizendo que é "mais do mesmo". Gostei muito da análise, parabéns a ele!
    UP THE IRONS!

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