Desvendando “Empire Of The Clouds”

Por CAIOBERALDO Para o Minuto HM



Temas militares e com grande conteúdo histórico sempre foram recorrentes em letras do Iron Maiden, e era de se imaginar que em um álbum tão aguardado como “The Book Of Souls” haveria mais um épico da legendária banda britânica. Com 18 minutos, “Empire Of The Clouds”, a maior canção da carreira da Donzela até aqui, já é considerada uma verdadeira obra-prima e merece incontáveis análises tão longas quanto ela própria.

Composta por Bruce Dickinson, sabidamente um apaixonado pela história da aviação, a música narra o destino do R101, um airship (dirigível) construído para ser o orgulho do Império Britânico ao final da década de 20, durante a primeira era do desenvolvimento de aeronaves. Bruce faz uso de muitas licenças poéticas, alterando a ordem de alguns fatos e interpretando à sua maneira alguns mistérios ainda não solucionados. É possível que o título da canção tenha sido inspirado pelo livro homônimo de James Hamilton-Paterson, que narra o declínio da segunda era da construção aeronáutica britânica após a Segunda Guerra Mundial.


Ao ser construído, o R101 era a maior embarcação aérea rígida (com estrutura interna que mantinha sua forma, não dependendo da pressão interna de hidrogênio) já feita, com mais de 220 metros de comprimento. Seu objetivo era alcançar as mais distantes terras do Império Britânico como Índia, Austrália e Canadá. Planejado para levar grandes volumes de carga, o R101 foi também desenhado para que seus passageiros viajassem com todo o luxo e conforto. Tratava-se de uma nave para a elite e para oficiais de alto escalão.


Após quase três anos de construção os primeiros testes do R101 mostraram que a nave apresentava problemas de peso. Isto ocorreu devido a diversas alterações no projeto original, que desafiava as limitações tecnológicas da época. Durantes tais testes problemas foram observados e componentes substituídos, tornando a aeronave ainda mais pesada. A cobertura (proteção externa dos bolsões de gás) também representava um risco e teve que ser substituída por outro modelo mais robusto e pesado, pois rompeu-se em determinados lugares durantes os vôos preliminares e não suportaria a pressão do ar mesmo a moderadas velocidades.

Muitos outros testes foram realizados, inclusive com a presença de expectadores, celebridades e repórteres, causando grande euforia e otimismo: a pressão política sobre o Ministro do Ar, Lorde Christopher Thompson, era muito grande dados os gastos do programa de aeronaves pelo qual era responsável. A propaganda positiva, portanto, fazia-se necessária em prol de seus interesses políticos. Novos problemas eram remediados às pressas assim que surgiam, pois Thompson queria que a viagem inaugural do R101 fosse realizada durante a Conferência Imperial de 1930, trazendo assim maior publicidade ao seu programa aéreo por “melhorar a comunicação entre os territórios do Império Britânico”. Desta forma, testes em altas velocidades e condições climáticas desfavoráveis não foram realizados de forma satisfatória.

É neste ponto, na manhã de 04 de outubro de 1930, momento da a partida do R101 em sua viagem inaugural para Karachi (então parte da Índia Britânica, hoje Paquistão), que a música se inicia.

“Empire Of The Clouds” pode ser dividida em diversos momentos: a calmaria do início, expectativa de uma viagem promissora para os tripulantes e passageiros (linhas suaves e orquestradas); o vôo em si, dentro do esperado, mas já com alguma preocupação devido aos problemas também enfrentados nos testes e potencial mudança no tempo (guitarras mais presentes, piano ao fundo, quase sufocado); o vôo turbulento, as correções de problemas para manter a nave no curso, as mudanças na trajetória (o piano some, as guitarras tomam conta com arranjos indivuais e ritmo cadenciado a princípio, mas que aceleram até o clímax); as rápidas tomadas de decisão, o desespero, as tentativas desesperadas de manter a nave no ar e no curso; o melancólico final. Tudo magistralmente acompanhado e executado pelos integrantes da Donzela.

O início é caracterizado por uma bela melodia, uma linha principal executada no piano e no baixo combinada a suaves notas de guitarra, acompanhada também por violinos. Um trecho bastante calmo, emulando o clima naquela manhã de outrubro que realmente parecia favorável, apesar das previsões contrárias:

To ride the storm, to an Empire of the Clouds
To ride the storm, they climbed aboard their silver ghost
To ride the storm, to a kingdom that will come
To ride the storm – and damn the rest, oblivion

Royalty and dignitaries, brandy and cigars
Grey lady, giant of the skies, you hold them in your arms
The millionth chance they laughed, to take down His Majesty’s craft
To India – they say – magic carpet float away
An October fateful day

Membros da família real e oficiais de alto escalão enaltecíam a grande embarcação de Sua Majestade, a maior já construida, em clima de celebração. Quando perguntados sobre a chance do R101 cair, a resposta era “uma em um milhão”. Debochando desta absurda possibilidade eles ordenaram o vôo do “tapete mágico” para a India.

Mist is in the trees, stone sweats with the dew
The morning sunrise, red before the blue
Hanging at the mast, waiting for command
His Majesty’s airship, the R101

A música muda levemente o arranjo de cordas, a guitarra passa a ser mais presente, bem como a bateria. As guitarras entram com maior peso agora – a música passa para seu segundo momento, o vôo:

She’s the biggest vessel built by man, a giant of the skies
For all you unbelievers, the Titanic fits inside
Drum roll tight her canvas skin, silvered in the sun
Never tested with the fury, with the beating yet to come
The fury yet to come

As guitarras ficam ainda mais intensas, suprimindo o piano presente deste o início. Uma tempestade pode ser vista a oeste, mas a tripulação decide prosseguir: a princípio porque era necessário corresponder às expectativas dos políticos preocupados com sua imagem, mas também por seu próprio ego – afinal, acreditavam conhecer a nave como a palma de suas mãos. Passageiros e tripulação foram apressados para que a partida acontecese antes da tempestade. O R101 alçaria vôo a despeito de suas fragilidades, de seu ainda desconhecido Calcanhar de Aquiles:

In the gathering gloom a storm rising in the west
The coxswain stared into the plunging weather glass
We must go now, we must take our chance with fate
We must go now, for a politician he can’t be late

The airship crew awake for thirty hours at full stretch,
But the ship is in their backbone, every sinew, every inch
She never flew at full speed, a trial never done
Her fragile outer cover, her Achilles would become
An Achilles yet to come…

Sailors of the sky, a hardened breed
Loyal to the King, and an airship creed
The engines drum, the telegraph sounds
Release the cords that bind us to the ground

O navegador (tradução livre para coxswain – termo designado ao responsável pela trajetória de uma embarcação) alerta o capitão de que a nave é pesada demais para uma trajetória tão longa, apenas para ter seu conselho ignorado por seu superior. (N.do.R: este diálogo é fictício, mas faz referência ao fato de que diversos especialistas não recomendavam vôos longos para o R101, mas tiveram seus laudos ignorados por superiores que determinaram que o problema de peso fosse contornado com a redução do compartimento de carga e a remoção de cabines de passageiros).

Said the coxswain – Sir, she’s heavy, she’ll never make the flight
Said the captain – Damn the cargo, we’ll be on our way tonight
Groundlings cheered in wonder as she backed up from the mast
Baptizing them her water from the ballast fore and aft
Now she slips into our past

Muitos acompanharam e saudaram a partida da maior aeronave até então construída. O som cadenciado acompanha os primeiros momentos do vôo, relativamente tranquilos, mas nota-se que o piano, característico da calmaria inicial, não está mais ali. E então aos 6:55 a banda faz o sinal de SOS em código morse com as três guitarras, baixo e bateria, como se alertasse o ouvinte sobre o que estaria por vir:


Entra um riff rápido, em um novo momento da música. Nave em pleno vôo, constante, embora turbulento. A história conta que a tripulação deve que tomar diversas ações durante o vôo, corrigindo o curso e compensando problemas. As fragilidades do R101 tornavam-se mais evidentes.

O tom vai mudando gradualmente, tornando-se mais agudo, representando o acúmulo de problemas enfrentados. Novo sinal de SOS em código morse. Batidas descompassadas (N.do.R: Nicko McBrain, evoluindo a cada novo álbum), riff mais acelerado, demonstrando a pressa e também a desorganização, resultado da falta de planejamento diante de problemas não previstos. Entra uma ponte com as guitarras em que é possível distinguir cada uma delas, seguida do solo de Dave Murray.

Seguidas correções de curso foram necessárias para que a tripulação pudesse compensar os problemas estruturais do R101. Testemunhas da passagem da nave por Londres atestam que ela voava visivelmente ‘de lado’, inclinada em ao menos trinta graus, e com a proa já apontada para baixo.

Novo momento de velocidade e tensão. Os tripulantes consideram novas alterações de curso, mas não reportam à base quaisquer problemas com o dirigível. Realizam, então, as trocas de turno, momento em que talvez algumas das informações tenham sido perdidas. A nova vigília decide então cruzar o Canal da Mancha. O riff cadenciado retorna, acompanhado de arranjos orquestrados, e ouvimos o solo de Adrian Smith representando a tensão da travessia: nenhuma referência, nenhum ponto de luz, apenas a água abaixo deles cada vez mais próxima.

Fighting the wind as it rolls you
Feeling the diesels that push you along
Watching the Channel below you
Lower and lower, into the night

Duas horas depois de sair da costa inglesa o R101 completava a travessia do Canal, chegando ao norte da França muito fora do ponto de entrada pretendido. Nova correção no rumo é realizada, mas dada a distância do curso original a nova direção os leva à região de Beauvais, conhecida pelas péssimas condições climáticas.


Lights are passing below you
Northern France, asleep in their beds
Storm is raging around you
A million to one, that’s what he say

Após a lembrança da irônica afirmação de “uma chance em um milhão” de acontecer uma catástrofe, o ritmo frenético da música é quebrado com um novo riff, com novos elementos de orquestra. Interpreto como um momento de dúvida, de incredulidade. Como poderia cair uma aeronave tão moderna, potente e majestosa?

Reaper standing beside her
With his scythe cut to the bone
Panic to make a decision
Experienced men, asleep in their graves

The cover is ripped and she’s drowning
Rain is flooding into the hull
Bleeding to death and she’s falling
Lifting gas is draining away

O fim é iminente. A cobertura externa, que não passara nos testes mais amenos, não suportou a velocidade dos ventos e as manobras do R101, rompendo-se na região frontal e causando o vazamento de gás. A sustentação na proa diminuía a cada segundo e a nave pendia cada vez mais para a frente.

A música é mais uma vez quebrada, desta vez com o retorno do piano, agora com notas críticas e agudas. Este momento representa o primeiro mergulho do R101, de 140 metros. A certeza da morte atinge todos a bordo. Um dos sobreviventes relataria que naquele momento o navegador chefe, G. W. Hunt, diria a famosa frase: “Nós caímos, rapazes!”, pouco antes do mergulho final.

We’re down lads – came the cry, bow plunging from the sky
Three thousand horses silent as the ship began to die
The flares to guide her path ignited at the last
The Empire Of The Clouds, just ashes in our past
Just ashes at the last

Pouco a fazer restou à tripulação. O R101 atingiu o solo do norte da França e incendiou-se imediatamente. Seus motores de três mil cavalos silenciados para sempre.

Here lie their dreams, as I stand in the sun
On the ground where they built, and the engines did run
To the moon and the stars, now what have we done?
Oh, the dreamers may die, but the dreams live on
Dreams live on, Dreams live on



Encerrava-se ali a primeira era britânica de desenvolvimento de aeronaves, programa que seria retomado apenas no período pós-Segunda Guerra, conforme relatado no livro de James Hamilton-Paterson.

Now a shadow on a hill, the angel of the east
The Empire Of The Clouds may rest in peace
And in a country churchyard, laid head to the mast
Eight and fourty souls, who came to die in France

O R101 foi ao chão em 5 de outubro de 1930, matando 48 de seus 54 passageiros, incluindo o então Ministro Britânico do Ar e outros oficiais de alto escalão. Seus corpos foram velados com honras militares no Palácio de Westminster e sepultados no cemitério da Igreja St. Mary, em Cardington, todos voltados ao mastro de amarração de onde o R101 partira naquele fatídico dia.

Fontes, créditos e referências externas:

http://www.airshipsonline.com/airships/r101/

https://en.m.wikipedia.org/wiki/R101

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Christopher_Thomson,_1st_Baron_Thomson

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Carmichael_Irwin

http://www.amazon.co.uk/Empire-Clouds-Britains-Aircraft-Ruled/dp/0571247954



Caio Beraldo

Com o suporte de Felipe Beraldo e Eduardo Bianchi Rolim

Sobre Iron Maiden Brasil

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7 comentários:

  1. Muito bem explicado, me senti numa breve aula de história, parabéns!!

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  2. Muito bem explicado, me senti numa breve aula de história, parabéns!!

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  3. Caralhoo ... Eu li parando em cada momento citado da música. O coração tá apertado aqui mano. PQP
    ÉPICO ...

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  4. Fantástica análise da música! Contar a história real intertextualizando com a letra e com a música foi, simplesmente, genial! Parabéns!!!

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  5. Fantasticamente incrível ler a tua narrativa e ao mesmo tempo ouvir mais uma obra do Maiden!!

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