The Quietus: Entrevista com Adrian Smith e Janick Gers sobre The Book Of Souls


Death Or Glory: Entrevista com o Iron Maiden

Por: Harry Sword

O Iron Maiden está prestes a lançar seu 16º álbum, “The Book of Souls”; Harry Sword acha que pode ser seu melhor álbum. E fica por dentro da história, falando com os guitarristas Adrian Smith e Janick Gers.
Única, desavergonhadamente épica e agradavelmente enlouquecida, a discografia anterior do Iron Maiden (ou seja, Brave New World em diante) oferece os registros mais emocionantes e profundamente gratificantes na história da banda. Porque, embora seja uma banda que se recusa a ficar presa no lucrativo túnel do tempo, nos últimos quinze anos - muito além de seus excelentes shows ao vivo – impulsionaram-se para trabalhos extraordinários em estúdio.
A partir do grito de guerra de Brave New World ao divertido passeio de Dance of Death; passando pelo bruto álbum conceitual, de 2006, A Matter Of Life And Death (o conceito? GUERRA!) - um registro que foi (até agora), o mais progressivo e convincente que a banda já fez - até 2010, com o igualmente enérgico “The Final Frontier”, a discografia anterior é caracterizada pela tendência a dar altos voos, sem vergonha, com muita ambição musical.
Neste mês de setembro, no entanto, vem o aguardado lançamento de “The Book of Souls”. Um álbum duplo, que chega depois da notícia da cura de Dickinson (ele estava recebendo tratamento para um pequeno tumor na língua; e o álbum foi gravado, no ano passado, em Paris, antes do diagnóstico da doença).
Tendo sido cúmplice de uma audição prévia, fico feliz de informar que “The Book of Souls” é um álbum poderoso; um épico que - apesar de 92 minutos – é furioso em todo tempo, nunca tinha me sentido tão empolgado. É, possivelmente, o melhor álbum que o Maiden já fez. Do galope bruto de ‘Speed Of Light’ e ‘Death Or Glory’, passando para odisséia teatral de 18 minutos ‘Empire Of The Clouds’, “The Book of Souls” é uma brincadeira colossal através de “Maidenismos” de vigorosas cores; também é um álbum que - como veremos - beneficiou-se talvez do mais organizado e imediato processo de gravação da história de bandas.

Você pode nos contar sobre o processo de produção por trás de “The Book of Souls”?
Adrian Smith: Não ensaiamos realmente nada - que é uma maneira muito diferente de trabalhar para o Maiden. Só trouxemos nossas ideias para o estúdio. Eu e o Bruce tivemos um encontro para produzir 'Speed of Light' e 'Death or Glory'. Steve e eu ficamos juntos no estúdio e toquei um monte de coisas que tinha e mostrei as letras que escrevi para esses acordes. Na verdade, eu escrevi algumas letras por conta própria. Nós, realmente, não tínhamos tocado juntos antes de ir para o estúdio em Paris. Eu fiz algumas letras e todos trouxeram ideias.
Janick Gers: Estou muito orgulhoso do álbum, acho que é fantástico. Bandas precisam crescer, trilhar novos caminhos e ir além dos limites. As pessoas dizem, “Oh, Maiden sempre soa igual”, mas não; nós seguimos caminhos diferentes e neste não é exceção. Eu tenho que dizer que o processo de produção foi realmente diferente desta vez. Normalmente, nós vamos aos ensaios e passamos três ou quatro semanas ensaiando. Nós escrevíamos com pessoas diferentes da banda e pegávamos todas as ideias – para que pudéssemos tocar o material juntos -, mas este foi diferente. Fomos para o estúdio com apenas algumas partes e terminamos escrevendo as músicas no estúdio -, então, na verdade, estávamos aprendendo, ensaiando e avaliando, tudo ao mesmo tempo. Todos nós trouxemos coisas diferentes, um amplo leque de ideias musicais - não queremos nos tornar uma imitação de nós mesmos; Conhecemos bandas que dão certo assim e fazem apenas uma música do novo álbum - e sabemos que as pessoas gostam e algumas pessoas querem isso – mas não é o que fazemos.

Qual o nível de pressão escrever desse jeito?
Adrian: Há pressão, mas é uma pressão boa, pois está de acordo com a energia do trabalho. Um mês antes de entrarmos em estúdio, gosto de ir a meu home estúdio e baixar uma série de demos e de ideias - é uma pressão boa, te joga para cima. Eu gosto disso.

Adrian, as faixas que você e Bruce escreveram juntos para o registro – ‘Speed of Light' e 'Death or Glory' – são as mais curtas e enérgicas. Foi uma decisão consciente, para focar em um som mais alto?
Adrian: Bem, na verdade, Bruce e eu não tínhamos escrito nada - só nós dois -, há alguns anos. Então, eu tinha em mente canções mais curtas. Costumávamos fazer coisas como ‘Two Minutes To Midnight' naquela época. Se eu tenho algo um pouco mais confuso, levo para o Steve e digo: 'O que acha disso?', porque, nesses dias, ele está centrado nas letras e melodias, tanto quanto qualquer coisa. Considerando que antes eu trazia quatro ou cinco canções completas - do começo ao fim –, atualmente, este é um processo muito mais colaborativo. Ele deu orientação lírica e melódica.

Você pode dizer como foi trabalhar com Kevin Shirley? Nesta fase, ele é muito o Martin Birch, do Maiden de antigamente, ele fez todas as gravações desde o Brave New World e capta um som muito bruto, ao vivo.
Adrian: Adotamos Kevin [risos]. Uma vez que você começa um relacionamento com alguém, tende a trabalhar mais confortavelmente. Às vezes, estávamos ensaiando músicas no estúdio e ele, secretamente, gravava. Ele ama o primeiro impacto: a espontaneidade. É muito organizada a forma como ele trabalha.

Eu acho fascinante como ele deixa o som bruto - porque muitas vezes bandas grandes como o Maiden tem a produção mais lapidada. Quer dizer, A Matter os Life and Death não foi ainda completamente dominado.
Adrian: [Suspira] Para ser honesto, alguns dos álbuns que fizemos no passado foram menos lapidados. Eu gosto de poder e peso, mas também gosto de atraso no vocal, coisas assim. Mas eu não me envolvo na mixagem deles. Kevin e Steve gostam de fazer isso por conta própria, mas devo dizer que fiquei muito feliz com a maneira que este soa.
Atualmente, tenho dificuldades de trazer efeitos para Kevin colocar na minha guitarra. Ele não gosta disso. Tenho que torcer o braço dele e às vezes dar cabeçada, mas estou muito feliz com a maneira que este álbum soa. É a combinação certa do desempenho bruto, com um pouco de polimento [risos].
Janick: Muito deste álbum foi feito ao vivo, fizemos este álbum no mesmo estúdio que Brave New World. Ele consegue pegar o som ao vivo, com certeza. Um som real - não é um som de guitarra americana compactado. Eu quero uma guitarra impetuosa, sem distorção, apenas em linha reta com o amplificador - ele recebe o som que eu gosto. Ele é muito parecido com Martin Birch quando capta o som de como estamos no estúdio. Isso pode parecer simples. Você pensaria “você colocou a banda no estúdio; colocou a fita; e isso soa como eles”. Bem, nove em cada dez vezes isso não acontece [risos]. Você precisa de alguém muito especial para obter aquele som. Martin Birch fez isso - ele fez isso com o Wishbone Ash, com o Deep Purple, com o Fleetwood Mac no passado. Mas depois tens outros produtores como o "Mutt" Lange - um fantástico produtor - mas eles criam o som; Eles fazem o som de' Mutt Lange'. E que nunca irá trabalhar para nós. Kevin é o oposto desta proposta.

O que podem nos dizer sobre a gravação de ‘Empire Of The Clouds’? De todos os épicos do Maiden, este é o mais longo. Derrota até mesmo “The Rime of the Ancient Amriner” por alguns minutos.
Adrian: Bruce estava trabalhando nela, há muito tempo, até chegar à gravação. Estávamos trabalhando nas outras canções e ele estava sentado em sua caixa de vidro à prova de som, com seu piano, como Beethoven, seu ouvido no piano, trabalhando em sua obra-prima [risos]. Ele foi consumido por ela. Foi difícil para gravar. Bruce trabalhou o piano por conta própria, nós a tocamos nas seções e Bruce e Kevin iam conduzindo e dando sugestões.
Janick: É quase como estar em um salão de música[risos]. É como a Broadway, há uma história ali. Não fizemos tudo em uma sessão - para aprender e fazer tudo teria sido impossível – fomos produzindo aos poucos. Íamos acrescentando partes, tentamos de tudo, não havia restrições.

Quero perguntar sobre a configuração das guitarras - não consigo pensar em muitas outras bandas com três guitarristas -, como isso funciona logisticamente? Janick, você estava tocando com Dave Murray durante uma década antes de Adrian juntar-se novamente à banda. Foi difícil adaptar-se a essa nova formação?
Janick: Foi muito natural, na verdade. É preciso lembrar que, antes de tocar no Maiden, nunca toquei com outro guitarrista, muito menos dois. Eu não tinha certeza que eu seria capaz de tocar com outro guitarrista, mas depois, quando Dave e eu tocamos juntos, foi muito natural; Não precisei mudar nada; Dave não precisou mudar nada; Nós conseguíamos tocar juntos e parecia como um gel. Sempre houve espaço para outras coisas.
Se eu tivesse saído quando Adrian voltou, então ele teria tornado a banda como era no Seventh Son; e se eu tivesse ficado e ele não tivesse voltado,  seria como voltar ao Fear of the Dark, então, quando ele voltou, mudou completamente - sentimos que poderíamos fazer qualquer coisa; Eu poderia jogar a melodia com a voz - como em 'The Red and Black' neste álbum - e agora nós temos todas essas opções quando estamos tocando ao vivo; notas altas, notas baixas, acordes completo, todas as divisões. De repente, temos a opção de três coisas. Não queríamos criar um caos de guitarras, queríamos ter sons claros e pesados.
Adrian: Se eu escrever uma canção, tocarei normalmente o solo dela e, em seguida, Dave ou Jan vão fazer um outro solo - geralmente o Dave - e então, novamente, se Jan escreve uma canção Dave tocará o solo – então, Dave começa a tocar tudo [risos]. Mas Dave tem a guitarra de sinal do som; Você ouve Dave tocar e sabe logo que é Maiden, não é? É um tom bem característico - mas somos grandes amigos, então trabalhamos isso. Não há uma competição. Eu sei que se Dave fizer um solo em dois takes, então eu vou tentar fazer a mesma coisa; Isso nos impulsiona a fazer o melhor.

Eu queria perguntar sobre a voz do Bruce. Não consigo pensar em um outro cantor que fique com a voz melhor, com a idade - a maioria das vozes se degeneram com o tempo  em algum grau - mas suas performances vocais no disco são absolutamente surpreendentes.
Adrian: Essa é postura dele. Ele nunca vai abaixar a guarda, vai sempre correr e pular até onde puder. Ele vai continuar batendo e golpeando. Eu sugeri a mudança afinação em algumas canções, mas ele preferiu mantê-la e passear pelas notas, pois ainda pode fazer isso. É incrível, realmente.

Vocês estarão em turnê no ano que vem... Acha que executarão o álbum inteiro ao vivo? Funcionou bem com A Matter Of Life And Death.
Adrian: Não vamos tocar o álbum inteiro. Será demais para as pessoas. Certamente, tocaremos todas nos ensaios, mas Steve escolherá as que entrarão no set; Não temos certeza ainda, mas estamos realmente ansiosos para sair com ele no próximo ano.

Você já se sentiu intimidado pela complexidade do material e como isso se traduzirá ao vivo?
Janick: Em primeiro lugar, somos músicos, então, nunca me intimido com nada. O problema, às vezes, pode ser tocarmos em grandes estádios e acontecer atraso com o som. Isso pode ser desconcertante: posso estar a trinta ou quarenta pés do Dave e não ouvi-lo ou pode haver um atraso na bateria por causa do tamanho do lugar - esses são os momentos estressantes.

A agenda de turnês costumava ser bastante brutal - lembro, sobretudo, da tour do Powerslave. Quais são suas lembranças daqueles dias Adrian?
Adrian: Não ficamos mais excursionando por mais de três meses, continuamente; Isso é suficiente. Se lembrar dos calendários das turnês dos anos 80, fazíamos seis shows – com um dia de folga, se tivéssemos sorte - às vezes, eram, literalmente, sete shows por semana. Quase nos matou naquela época - e isso foi quando éramos jovens -, então, seria impossível agora. Não queremos baixar o padrão do show, tentamos colocar a mesma energia, como sempre fizemos.
Para ser honesto, aquilo foi de triturar - depois de seis meses nós sentávamos e pensávamos pra nós mesmo, merda, ainda temos mais seis meses pela frente! Era muito torturante, depois da turnê americana seguíamos para casa, depois, começávamos a turnê na Europa, mas agora nós temos um forte apoio nesse sentido.

A plateia Maiden - na Inglaterra, pelo menos -, parece estar ficando mais jovem. Já vi várias vezes, na última década, a última vez na turnê Final Frontier, em 2010. Fiquei impressionado com o quão jovem a multidão era - isso é algo que você vê para toda trajetória da banda?
Adrian: Na América é diferente, por alguma razão, onde a tendência é a de um público mais velho. Mas no resto do mundo, na América do Sul, na Europa, eles parecem estar ficando mais jovem; A energia que vemos é incrível.
Janick: Eu sempre gostei de turnês, sempre apreciei o processo. Uma das motivações ao entrar em estúdio é que podemos sair na estrada; Eu amo turnês. Para este álbum, estávamos gravando em Paris, e tão logo terminaram as gravações, saí passeando por Paris. Isso é ótimo para mim; Eu amo o processo de turismo. Eu preciso que cada show seja o melhor, mas também gosto de sair para ver a arquitetura e a arte. Amarro meu cabelo para trás, coloco um chapéu, coloco uma maçã e uma garrafa de água em uma mochila, e eu estou feliz para o resto do dia. Quero experimentar a vida.

Fãs do Maiden, normalmente, são muito receptivos ao novo material... Mas lembro de ver um vídeo do YouTube, em que um cara americano segurava uma placa que dizia “Toquem os clássicos” - que Bruce rasgou. Ainda há esse tipo de coisa nos dias de hoje? Pessoas que esperam 'Number of the Beast' até o infinito?
Adrian: Nunca vi muito disso, para ser honesto com você. Nunca senti o público contra a banda - porque a banda é pra cima, uma banda séria e o público nos dá essa margem de manobra; pelo menos eu espero que façam isso. Como você disse, saímos e fizemos o álbum inteiro, há alguns anos.
Janick: Estou muito feliz de sair e tocar as coisas mais antigas, mas no final do dia tem que ter sido válido. Não adianta andarmos por aí, parecendo viver nos anos 80. Orgulho-me deste álbum; Estou orgulhoso deste álbum; cada registro é um ponto de vista de onde a banda está em um momento particular; e este foi o tal processo inventivo.

E quanto tempo de estrada vocês veem para o Maiden?
Adrian: Não sei, quero dizer, os Stones ainda fazem isso, não fazem? [risos]? Certamente, bastante tempo pela frente, se tudo correr. Nós ainda amamos essa experiência de vida

The Book of Souls será lançado em 4 de setembro, através da Parlophone Records.

Fonte: The Quietus

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2 comentários:

  1. Respostas
    1. Sim... Pois a EMI em 2011 teve uma parte (a de gravação musical) englobada pela Universal Music e outra parte (a de editora musical) englobada pela Sony... Então EMI é considerada extinta!

      A gravadora atual do Maiden é a Parlophone Records, que pertence à Warner Music

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