Análise: Discos perfeitos - The Number of the Beast.


Por Anderson Frota.

Eu sempre apreciei o terror. Seja em livros, filmes ou mesmo quadrinhos (revista Cripta), o tema me fascina e me levou a consumir diversas obras sobre o assunto. Mas uma vez, uma úncia vez, eu tive que abortar a leitura de um livro por incômodo. Em 1986, quando eu trabalhava no interior do estado, estava sozinho no quarto da pousada lendo o livro A Profecia. Era noite e a combinação do trecho em que estava com o isolamento e a variedade de estalos e barulhos que as pessoas costumam ouvir nesses momentos fez com que eu marcasse a página e deixasse para retormar o texto em momento mais oportuno. Já li O Exorcista, Amitville, além de toda a obra de Stephen King, Lovecraft e Edgar Allan Poe, mas A Profecia realmente me assustou. 

Evidente que o que me fez adquirir o livro não foi o filme feito para o cinema, bem ruinzinho por sinal, e sim o disco cuja canção-título foi nele inspirada. E, em 1982, o Iron Maiden era tão irrefreável quanto o próprio Damien. Tal qual o advento de um ser enviado do inferno para a destruição do mundo, o Iron Maiden ressurgia para guiar o heavy metal para um novo patamar. Em sua nova fase, com Adrian Smith definitivamente consolidado ao grupo, Bruce Dickinson foi incorporado para ser a nova cara da banda, mais determinada e mais profissional. 

Na minha opinião, The Number of the Beast peca, em parte, apenas pela ordem das músicas. Invaders é uma excelente canção, mas nem de longe é a mais forte do disco. No entanto, por ser a mais assemelhada ao material dos dois primeiros álbuns, creio que ela funcione como elemento de transição entre o antigo material e o novo. A partir de Children of the Damned temos, finalmente, contato com tudo que o Iron Maiden é, a partir de agora, e que será no futuro. Existem várias bandas que fazem músicas longas, mas que não mantém uma linha. As músicas, em sua parte final, parecem ser outra completamente diferente daquela do início. O Maiden, ao contrário, tem habilidade para criar composições longas que mantém sua coerência e, conforme se desenvolvem, vão ficando cada vez melhor. Children of the Damned é assim: a sua parte final é diferente de seu começo, mas é a mesma música, com mais pegada, com começo, meio e, ao final, um clímax, tal qual o desenrolar de um filme.
Em The Prisoner o destaque, para mim, é Clive Burr. Apesar de todo o trabalho do restante da banda, é sempre a bateria que eu percebo em primeiro plano nessa música, especialmente a marcação executada durante o solo de guitarra. 22 Acacia Avenue é do mesmo naipe de Children of the Damned. Música com uma progressão lógica de melodia. É uma pena que essas duas maravilhas não façam parte do vídeo Life After Death (para quem não sabe, as cinco últimas músicas são de um show diferente do que gerou a gravação principal do álbum).

O que seria o antigo lado B inicia com o épico, a faixa-título, de começo climático como exige o seu tema. A canção foi tão marcante para a banda que a utilização da palavra ‘beast’ como autoreferência seria uma regra a partir de então. O Iron Maiden nunca se autodenominou como ‘killers’, por exemplo, mas já lançaram um disco ao vivo, uma compilação e uma coletânea de vídeos em que se apresentam como ‘the beast’. De fato, não só mais impactante como mais de acordo com a dimensão que o grupo tomou.

Run to the Hills leva o conceito de ritmo cavalgado alguns degraus acima. Nem poderia ser diferente, de acordo com a letra que, aliás, demonstra a ampla variedade de temas abordados pelo Iron Maiden em suas músicas. Gangland é a única faixa do disco que não tem a mão de Steve Harris na composição e, salvo engano, é a única da banda que Clive Burr assina. É uma faixa bem rápida e direta, quase sem variação de andamento, com o pé fixo no acelerador. O ápice do disco vem na sequência, não porque seja a última música, mas porque é a melhor. O mais perfeito retrato dos pensamentos de um condenado à morte aguardando a execução. Paul DiAnno teve o seu momento eterno com Phantom of the Opera e Hallowed be thy Name tem o mesmo nível de perfeição, quase como se Steve Harris quisesse que a estréia de Bruce fosse marcada por uma música tão grandiosa quanto Pahntom foi para Paul.

Sem desconsiderar Judas Priest, UFO, e as outras bandas que os inspiraram, bem como todas aquelas que participaram da NWOBHM, o Iron Maiden estava em uma posição única, sem paralelos entre as demais bandas de metal. Se a linha evolutiva do gênero teve o seu primeiro salto entre o Black Sabbath e o Judas Priest, o Maiden era indubitavelmente o marco seguinte na escala. Talvez seja por isso que a tal besta do apocalipse até hoje não saltou das páginas da ficção para a realidade. Nem ela poderia superar o Iron Maiden!

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Alexandre Rodrigues Temoteo