BLAZE BAYLEY: Um Ensaio

Blaze Bayley: Um Ensaio
Por: Afonso Alexandre
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O (gigantesco) texto abaixo foi apresentado como um ensaio livre ano retrasado, no meu primeiro ano de Letras. A professora pediu este “Ensaio Livre” como uma forma de conhecer a escrita de cada aluno, além de saber como nós nos dávamos com a coerência e coesão em um texto.
É um texto bem grande, no qual dou uma geral na carreira de Blaze Bayley, até o lançamento do The Man Who Would Not Die, além de buscar desconstruir a idéia de que Heavy Metal é uma forma de arte sem conteúdo…
Enfim, para abrir os trabalhos (atrasados diga-se passagem) do ano de 2012, resolvi colocar o dito ensaio. Peço apenas que desculpem um pouco a linguagem, ainda que livre, foi um ensaio para a Universidade, de modo que há alguns traços da tal “linguagem acadêmica”…

Livros de auto-ajuda: Atire-os longe! Ouça Heavy Metal.

APRESENTAÇÃO

Rock e Heavy Metal existem como gêneros musicais desde os anos 70. Sempre carregaram a pecha de música rebelde, com conteúdo simplista, temáticas puramente violentas, melodias agressivas ou inexistentes, sendo para muitos extremistas, surdos, é bom dizer, um gênero praticamente antimusical. Ainda que a história do gênero seja repleta de artistas que condizem, em cada atitude de suas vidas e obras musicais com tais características, existem muitos que levam sua música realmente a sério e produzem sua arte com paixão. Muitas vezes, como acontece com outras formas de arte, é preciso contextualizar o objeto analisado, seja um quadro ou uma música. É preciso se perguntar por que o artista resolve falar de temas violentos ou agressivos e o que ele quer retratar com isso.

A arte é reflexo do artista, assim sendo fica claro que as condições de produção de
uma música tem o seu peso na hora de uma análise que busca ir além do óbvio e do
superficial. Logo abaixo demonstrarei como uma música pertencente ao estilo, pode passar
de simples produto de “roqueiros burros do mal” para objeto de arte que se relaciona com
seu público, modifica seu status quo, oferecendo novas reflexões sobre a própria vida.

A metodologia focará principalmente na análise da letra, mas também tecerá
alguns comentários pertinentes sobre a estrutura musical da obra per se. Além disso, muitas vezes serão usados termos típicos de análises literárias, tais como “versos” e “estrofes”. Sei que a aplicação de tais termos deve se restringir ao texto literário, ainda assim, embora música e literatura sejam formas de arte distintas, as duas continuam sendo arte, portanto não é tão forçoso fazer uso de algumas nomenclaturas que, mesmo sendo conceitualmente imprecisas, auxiliarão na consecução do objetivo.

Como exemplo tomarei a música The Man Who Would Not Die de autoria do artista
Blaze Bayley. A música pode ser encontrada no álbum homônimo lançado em 2008. Antes,
porém, é preciso contextualizar, isto é, dizer quem é o autor da música.

O HOMEM QUE NÃO DESISTE

Blaze Bayley é um músico britânico, nascido no ano de 1963 que, como veremos,
pode facilmente ser comparado à definição ideal de uma pessoa azarada. Ainda na
adolescência, juntou-se a alguns amigos e fundou uma banda amadora chamada Wolfsbane. O Wolfsabne nunca alcançou muito sucesso, mesmo porque o Heavy Metal sempre
foi um gênero ignorado pela grande mídia; ainda assim, após alguns anos de trabalho a
banda conseguiu uma boa base de fãs, lançou um bom álbum de estúdio e, sua maior
conquista na época, foi convidada a tocar como banda de abertura nos shows da turnê de
1990 do Iron Maiden.
O Iron Maiden não é apenas uma banda grande de Heavy Metal, trata-se de uma
verdadeira instituição do gênero, sendo um dos responsáveis que moldaram e definiram o
próprio Heavy Metal; daí nota-se a responsabilidade e também reconhecimento ao
trabalho do Wolfsbane. Um degrau maior de sucesso parecia certo para Blaze Bayley e seus
amigos. Por um momento devemos seguir a própria história do Iron Maiden pois sua
importância para Blaze Bayley não termina aqui.
O ano de 1993 marcaria uma grande mudança na estrutura da banda-instituição Iron
Maiden. Steve Harris, baixista e eterno líder-comandante da banda, passava por graves
problemas de cunhos pessoal e profissional: Sua pai falecera recentemente, além disso, acabara de sair de um divórcio espinhento. Mais ainda, brigas com o vocalista Bruce Dickinson, que buscava mais espaço na banda para suas composições, aumentavam a cada dia. Tal quadro culminou com a saída do vocalista em busca de sua carreira musical solo (alguns anos mais tarde ele se uniria a Adrian Smith, também ex integrante do Iron Maiden). Após um hiato, o Iron Maiden anuncia seu novo vocalista: Blaze Bayley.

Sair do Wolfsbane e assumir o microfone do Iron Maiden, foi simultaneamente o melhor e o pior que podia acontecer a Blaze Bayley. O Iron Maiden já vendera milhões, tocara em diversos pontos do globo e tinham uma reputação mais do que sólida; poder mostrar seu trabalho em uma banda deste porte era um oportunidade única. Porém a verdade deve ser dita, ainda que Blaze Bayley tenha demonstrado enorme coragem em “dar a cara “a tapa”, ele era um cantor inexperiente. Embora sua voz sempre tenha sido forte, na época lhe faltava fôlego. Pior ainda, seu registro vocal, isto é, as notas que sua voz alcançava, era o de baixo, forçando muito o de um contra-alto, sua voz sempre teve um timbre grave. Justamente o contrário do vocalista anterior, Bruce Dickinson; este possuía o registro de um tenor, alcançando notas muito agudas. Numa decisão tacanha, o Iron Maiden decidiu não re-arranjar as músicas antigas para a voz de Blaze Bayley. Resultado: Ele tinha que se esforçar o dobro nos shows para conseguir chegar perto da força vocal do antigo vocalista. Tais fatos, aliados aos já citados problemas pessoais do baixista Steve Harris
resultaram em dois álbuns muito mal compreendidos pelos fãs. A rejeição ao novo vocalista
foi imediata e quase unânime. Os álbuns lançados em sua época até hoje são vistos como
subprodutos (embora, na humilde opinião deste que vos escreve, são álbuns muito honestos e que foram necessários para o período que banda atravessava).

A “má fase” durou até o ano de 1998, culminando na saída do já não tão
inexperiente vocalista da banda. Embora a separação tenha sido amigável dos dois lados,
banda e vocalista, até hoje o fato carece de maiores explicações. Não obstante, após a saída
de Blaze Bayley, o Iron Maiden anunciou o retorno do antigo vocalista Bruce Dickinson e
também do ex-guitarrista Adrian Smith, sendo que desde então seis músicos integram o
time da banda.
Blaze Bayley, tendo mostrado corajosamente seu trabalho ao mundo, já com mais
experiência e conhecendo outros músicos do meio, seguiu em frente. Apoiado por
sua esposa Debbie, montou sua própria banda solo, chamada simplesmente de Blaze e tratou logo de gravar um álbum de estréia.
Sillicon Messiah lançado no ano de 2000 é um belíssimo trabalho, soa moderno sem soar fora do estilo musical. Melhor ainda, é música composta pela banda de Blaze Bayley, para a voz de Blaze Bayley. Porém, como foi dito acima, Blaze Bayley é um homem azarado. Por culpa da gravadora, o álbum foi lançado no mesmíssimo dia de Brave New World, álbum do Iron Maiden que contava com o retorno dos filhos pródigos Bruce Dickinson e Adrian Smith. Não é difícil imaginar qual dos lançamentos que atraiu mais atenção tanto dos fãs como da imprensa especializada…

Blaze Bayley continuou de forma corajosa, estóica. Lançou mais dois álbuns, The Tenth Dimension em 2002 e o registro ao vivo As Live as It Gets em 2003. Como azar pouco é bobagem, nessa época os músicos que estavam juntos com Blaze Bayley já não eram os mesmos do primeiro álbum, as mudanças de integrantes de sua banda eram constantes. A banda, ainda com o nome Blaze, lançou em 2004 o álbum Blood and Belief, e sofreu em seguida uma completa mudança de integrantes. Descontente com o suporte que recebia da gravadora, o vocalista resolveu dar um tempo na carreira. Entre 2004 até 2008 a banda em realidade ficou totalmente parada, tendo apenas Blaze Bayley como seu membro original.
Enquanto não achava novos músicos para sua banda, Blaze Bayley foi tentar a vida como vendedor. Tal resolução revelou-se desastrosa. Blaze Bayley certa vez desentendeu-se com um cliente e acabou sendo preso por agressão. Quando foi busca-lo na prisão, sua esposa Debbie, sempre companheira, riu e disse que partir daquele dia ele deveria se concentrar naquilo que melhor sabia fazer: Cantar e fazer música

Foi o que ele fez. Reuniu novos músicos, montou uma nova banda agora chamada Blaze Bayley e gravou um novo álbum, lançando e promovendo o trabalho por meio de gravadora própria. The Man Who Would Not Die de 2008 mostra uma banda renovada, com um vocalista totalmente seguro de sua capacidade e que sabe muito bem o que quer e o que pode fazer.
Porém, como já dito, Blaze Bayley é um homem azarado. Para promover o álbum The Man Who Would Not Die, a sua gravadora, tendo na figura da própria esposa de Blaze Bayley, Debbie, como gerente, organizou uma grande turnê mundial, que passaria por vários lugares do mundo, tocando até mesmo em muitas cidades do interior do Brasil (no dia 08 de janeiro de 2009 inclusive a banda apresentou-se em Maringá, Paraná). Porém, faltando pouco mais de uma semana para o início do turnê, Debbie sofreu um aneurisma cerebral. Ela ficou em coma profundo por várias semanas, durante as quais Blaze Bayley esperou ao seu lado por uma melhora. Em 27 de Setembro de 2008, infelizmente Debbie faleceu.

Arrasado pela morte de sua esposa e companheira, Blaze Bayley pensou em desistir
de tudo. Mas, em comunicado oficial em seu website, confirmou que as datas agendadas
para a turnê seriam mantidas e que a banda iria se apresentar. Segundo o cantor, sua
esposa Debbie trabalhara muito para que a turnê acontecesse e seria um desrespeito com
seu esforço não comparecer aos shows. Os shows aconteceram normalmente, na medida do possível. Posso dizer, pois estive presente no show de Maringá, que o vocalista estava compreensivelmente taciturno, o que resultou em show tenso mas muito competente.

Blaze Bayley continuou e continua seu caminho. Neste ano de 2010 lançou o quinto
álbum de sua carreira, intiulado Promisse and Terror, novamente fazendo diversos shows
pelo mundo, pelo Brasil e mais uma vez visitando Maringá no dia 07 de Abril, um show
que foi sensivelmente mais descontraído. Apenas para manter a tradição do azar, poucas
semanas antes do início desta turnê, o baterista deixou a banda. Um novo baterista foi
contratado às pressas, a princípio apenas para a turnê, sendo logo após efetivado como
membro fixo da banda.

O HOMEM QUE NÃO MORRERIA

Agora que já conhecemos o artista a ser analisado, podemos proceder à analise da
letra de The Man Who Would Not Die. A letra e sua respectiva tradução encontram-se na
página seguinte

The Man Who Would Not Die
Blaze Bayley
I have a noose around my neck
It is spun from my hopes and dreams
The ones who wronged and now are choking me
The hanging man, I am not hanged
To martyr’s breath I must now cling
Until I face those who did this to me

On and on, I’m cursed to live
Cursed with life until I
Have done what must be done
I am the man… Who would not die

They made these gallows from black light
But the shining light of this truth
Will make them crumble
And I will be free
To take back what once was mine
And then from gallows of bright steel
Hang them with the same rope
They made for me

On and on, I’m cursed to live
Cursed with life until I Have done what must be done

Hang them high with their own lies
When their necks break then I
Have done what must be done
I am the man… Who would not die
On and on, I’m cursed to live
Cursed with life until I
Have done what must be done
Hang them high with their own lies
When their necks break then I
Have done what must be done

On and on, I’m cursed to live
On and on, I’m cursed to live
On and on, I’m cursed to live
On and on, I’m cursed to live
I am the man… Who would not die

O Homem que Não Morreria
Blaze Bayley

Eu tenho um laço ao redor de meu pescoço
Trançado com meus sonhos e esperanças
Os que deram errado e agora me sufocam
O homem dependurado, eu não estou enforcado
Ao fôlego de um mártir devo agora agarrar-me
Até que eu encare aqueles que fizeram isso a mim
Por todo o sempre, estou amaldiçoado a viver
Amaldiçoado com a vida até que eu
Tenha feito o que deve ser feito
Eu sou o homem …que não morreria

Eles fizeram estas forcas com luz negra
Mas a luz brilhante desta verdade
Fará com que elas desmoronem
E eu serei livre

Para ter de volta o que já foi meu
E então com forcas de aço brilhante
Enforcarei-os com a mesma corda que
Eles fizeram para mim
Por todo o sempre, estou amaldiçoado a viver
Amaldiçoado com a vida até que eu
Tenha feito o que deve ser feito
Enforcar-los bem alto com suas próprias mentiras
Quando seus pescoços quebrarem então eu
Terei feito o que deve ser feito
Eu sou o homem …que não morreria

Por todo o sempre, estou amaldiçoado a viver
Amaldiçoado com a vida até que eu
Tenha feito o que deve ser feito

Enforcar-los bem alto com suas próprias mentiras
Quando seus pescoços quebrarem então eu
Terei feito o que deve ser feito

Por todo o sempre, estou amaldiçoado a viver
Por todo o sempre, estou amaldiçoado a viver
Por todo o sempre, estou amaldiçoado a viver
Por todo o sempre, estou amaldiçoado a viver
Eu sou o homem …que não morreria

A primeira vista, a música é apenas mais um produto de um gênero musical violento
e agressivo; sua letra e arranjo musical parecem contribuir e corroborar todas as críticas e
estigmas dirigidos ao Heavy Metal. A olhos e ouvidos desatentos, ou talvez seja melhor
dizer, para pessoas com olhos e ouvidos tendenciosamente negativos, a música é carregada
de imagens mórbidas, recheadas de ódio, dotada de um sentimento de vingança gratuito.
Sim, música e letra possuem um caráter agressivo e são construídas tendo por base
um sentimento de vingança, mas tais características não são gratuitas. Vale lembrar que
Blaze Bayley é um homem azarado. Um homem que sempre teve problemas para
atravancar sua arte. É importante lembrar também que a música em questão foi lançada no álbum homônimo de 2008, sendo o primeiro colocado no mercado sob a égide da gravadora própria do cantor. A decisão de montar uma gravadora própria foi motivada pelo descaso e falta de ética da gravadora antiga, que não oferecia o apoio necessário à banda.

No contexto do lançamento do álbum, e este inserido no contexto maior da própria história de vida de Blaze Bayley, é significativa a presença de uma música de cunho vingativo. Música que inicia e nomeia o álbum.
Ouvindo com atenção a música e analisando mais detalhadamente a letra, percebe-se
que ela começa de supetão, com todos os instrumentos sendo tocados simultaneamente.
Ouve-se uma melodia rápida e forte, que transmite um tom de angústia e opressão. Tais
sentimentos somente são “desengasgados” com a chegada do primeiro verso da primeira
estrofe. Ocorre uma súbita pausa na parte instrumental enquanto o vocalista, dando voz ao
eu-lírico, declara que existe um laço ao redor de seu pescoço. A imagem evocada, a de uma
pessoa em um forca, não resolve, mas potencializa o quadro de angústia construído até o
momento.
Logo após o primeiro verso, os instrumentos retomam sua carga opressora, enquanto é dito que o referido laço no pescoço foi cerzido com os sonhos e esperanças do eu-lírico, e que estes foram completamente anulados. É de se pensar que qualquer semelhança com a vida do autor da música não seja mera coincidência.
A segunda estrofe continua a desenvolver o tema com um interessante jogo de palavras. “Hanging man” pode referir-se em língua inglesa tanto à figura de um enforcado, quanto à de alguém que está dependurado, à beira de uma situação incerta e desconfortável.
Tal ambigüidade de sentidos é aproveitada pelo eu-lírico para dizer que, embora sua vida esteja em risco, ele ainda não está morto, todavia não desiste. De fato, o eu-lírico tem um propósito: precisa agarrar-se ao fôlego de um mártir, isto é, resistir à tentação da desistência, pois deve enfrentar aqueles que o colocaram em tal situação.

Já podemos neste momento lançar mão de uma hipótese interpretativa. Mais do que uma música de vingança gratuita, The Man Who Would Not Die é uma declaração de ódio à todos os problemas causados pela antiga gravadora da banda. Uma gravadora que não lhes deu o apoio necessário, uma gravadora que buscava apenas lucrar facilmente com a arte produzida, sem levar em consideração os próprios artistas. Uma gravadora que vendeu sonhos e esperanças para o artista, apenas para amarrá-lo e enforcá-lo com obrigações contratuais, isto, com sonhos e esperanças que falharam. Tal chave interpretativa será confirmada e mais explicitada ao longo da música.
O termo ponte é usado em teoria musical para indicar a parte estrutural que antecede o refrão, ligando-o ao restante da música. Na ponte de The Man Who Wold Not Die temos uma declaração muito forte do eu-lírico. Ele é amaldiçoado a continuar vivendo, sem descanso, até que tenha feito aquilo que deve fazer, isto é, vingar-se de seus algozes. Tal condicionalidade é explicitada no refrão, pelo termo inglês “Would”; de fato, o eu-lírico é o
homem que não morreria, não enquanto não realizar seus intentos.

A segunda parte da música, sempre acompanhada de uma melodia rápida e agressiva, dá mais detalhes da relação do eu-lírico com seus inimigos. Um jogo de cores básicas, preto e branco, serve para marcar a oposição fundamental expressa na música. O vocábulo inglês “They” remete àqueles que são colocados na posição de opressores. Os mesmo que construíram a forca, na qual pende o laço que está ao redor do pescoço do eu-lírico. Tal forca é feita de luz negra. Ora uma luz negra é uma anti-luz, que não ilumina, que oculta e serve de refúgio aos opressores. Em oposição, o eu-lírico tem a “shinning light of this truth”, a qual lhe possibilitará destruir as armas de seus inimigos, aquela que o libertará. Claramente o artista sente-se preso, tolhido em seu impulso criativo, prestes a ser sacrificado como mais uma reles mercadoria Porém, ele tem a “verdade”. O que é essa verdade?

A resposta encontra-se na próxima estrofe. Já sabemos que o eu-lírico está amaldiçoado a continuar a viver enquanto sua vingança não for consumada. Desta forma, para que ele possa conseguir de volta a liberdade de criação que possuía, ele usará forcas de aço brilhante (e não luz negra) além das mesmas cordas feitas para ele, contra seus inimigos. Ora, não é nada forçado lembrar que trata-se de uma música de Heavy Metal, palavra que pode ser traduzida livremente como “metal pesado”. Assim, as forcas que o eu-lírico
usará são feitas de aço, outro tipo de metal. A metáfora metalinguística é bela e poderosa. É impossível escapar à ideia, claramente expressa de que o artista construirá sua arma de vingança com o aço, com o “metal pesado”, com sua própria arte que antes lhe haviam tomado. Mais ainda: usará a mesma corda. A palavra inglesa “rope” difere ortografica e semanticamente de “hope” mas a pronúncia é a mesma. Cria-se uma outra ambigüidade interessante: O eu-lírico fará sua vingança com sua própria arte, com a própria corda que fora cerzida para si, com as mesmas esperanças frustradas que agora serão atiradas à face de seus inimigos. Em palavras menos poéticas porém mais diretas, o artista diz à sua antiga gravadora que a arte que não quiseram apoiar, agora mostrará o quanto eles estavam errados. Como pode tal desejo de vingança, devidamente contextualizado, ser gratuito?

A segunda participação da ponte traz, além dos elementos já explorados na primeira, outros versos que reforçam a chave interpretativa. O vocábulo inglês “Them”, forma acusativa do pronome “They”, remete novamente à figura dos opressores, aqueles que serão enforcados com as mesmas mentiras que criaram. Apenas com a completa aniquilação de seus inimigos, simbolizada pela quebra de seus pescoços, é que o eu-lírico se permitirá descansar, ou, para usar um termo da própria obra artística, apenas com a derrota de seus algozes é que o eu lírico passará de The Man Who Would Not Die para The
Man Who Can Rest in Peace.

Depois do segundo refrão, segue-se uma seção totalmente instrumental Nesta, igualmente conduzida por um ritmo rápido e agressivo, inserem-se os solos de guitarra. Um solo de guitarra, mais do que um conjunto de notas tocadas em seqüência e dotadas de um sentido intrínseco com a música na qual se inserem, é o espaço onde o músico, no caso o guitarrista, pode se expressar, dar voz a seus sentimentos sobre o tema trabalhado. Os dois solos presentes na música, sublimam a temática da angústia no enfrentamento com os antagonista, conduzindo a uma nova quebra súbita de toda instrumentalização, de forma análoga à quebra existente ao início de The Man Who Would Not Die. Pode-se dizer que os solos conduzem para o ponto final, para a conclusão da obra e última declaração das decisões do artista.

Para tanto, repete-se a ponte e seus significados já explicitados. Ao final desta porém temos a frase “On and on I’m cursed to live” grafada e cantada quatro vezes. A expressão “on and on” é usada em inglês para mostrar que uma situação prossegue, e segue, e segue, e segue, sem fim. A importância da missão auto-definida do eu-lírico é tamanha que não são mostrados indícios da conclusão desta angústia. Como definir o momento em que os algozes terão quebrado o pescoço? Como saber quando o eu-lírico encontrará a paz? Saindo da obra artística e passando à vida do artista: Como saber quando os problemas acabarão na vida de Blaze Bayley? Nem artista, nem eu-lírico podem responder, mas ambas declaram-se que são “O homem que não morreria”.

CONCLUSÃO

O caráter de auto-afirmação em face das adversidades, aliado à uma incansável luta contra desilusões, certamente não condiz com o quadro estereotipado de “roqueiro revoltado do mal”. Blaze Bayley é um artista, no sentido mais estrito da palavra, e não permitirá que sua arte seja silenciada por pouca coisa. Como vimos, sua música pode passar por mais de uma interpretação: Pode ser encarada como mero discurso de violência e ódio, uma visão pobre e superficial da arte. Pode ser encarada como um produto que articula arte e experiências pessoais de vida para criar um interpretante da realidade para o próprio artista, algo que lhe permita auto-afirmar-se como tal e dizer, a quem esteja disposto a ouvir, como sua arte pode transpor os limites de mera obra musical e tornar-se algo relevante, ainda que seus padrões estéticos não sejam os mesmos do que é encarado como “comumente relevante”.
Mais ainda: Ao produzir este tipo de música, o artista dialoga com seus fãs, mostra-lhes um caminho a seguir para enfrentar os problemas do cotidiano, encoraja àqueles dispostos a apreciar a arte, a não desistir frente ao primeiro problema, mas procurar conhecer seus verdadeiros inimigos e lutar contra eles. Talvez seja esta a característica primordial e razão precípua do sucesso de gênero Heavy Metal, isto é, a facilidade com que lida com temas espinhosos, mas que muitas vezes oprimem o ser humano. Um estilo musical que muitas vezes, por ignorância pura e ingênua, devido às características estéticas próprias do gênero, não é visto como arte, apenas como “barulho sem sentido”.

O fenômeno literário dos livros de auto-ajuda é calcado na incessante busca do ser humano por algo que lhe dê respostas. Porém a humanidade não precisa destes livros, precisa da arte e do contato que esta oferece com a criatividade da subjetividade humana. Não estou dizendo que o Heavy Metal é a arte que pode salvar a humanidade. Mas seu valor artístico foi, até agora, renegado e deixado apenas para aqueles que persistem, àqueles que tentam
ver e ouvir além da superfície. Como demonstrado, seu valor é precioso. A arte é um reflexo do artista, e a arte reflete em seus espectadores. Desperta neles uma visão da realidade, visão que permite interpretar a mesma realidade de formas diferentes.
Não se sabe ainda quando será lançado o próximo álbum da banda de Blaze Bayley, e principalmente, não se sabe quando um “novo problema” surgirá. Dado o histórico de problemas Vs garra e vontade de vencer constantes, parece certo que ambas continuaram na história da banda e da arte do cantor.

Fonte: http://blasquezfigueroa.wordpress.com/

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