Bruce Dickinson, quem diria, é um "little monster". Explico. Quando conversei com o vocalista do Iron Maiden sobre o novo documentário da banda que entra em cartaz nesta quinta (7), o explosivo "Burning Ambition", ele fez questão de enfatizar sua admiração pela responsável por "Poker Face" e "Bad Romance". Ecletismo, dizem os sábios, é o caminho para uma vida plena.
Foi justamente para romper com estruturas rígidas que o Iron Maiden ganhou destaque. Ao fim dos anos 1970, quando a Inglaterra mergulhava na potência do punk, o grupo criado pelo baixista Steve Harris optou por trilhar caminho próprio, forjando o que seria o New Wave of British Heavy Metal. De forma orgânica, terminou por traçar um som - e um estilo, e uma comunidade - que agora, cinco décadas depois, segue firme e fiel.
"Burning Ambition" é uma celebração catártica da jornada do Maiden. De banda que trafegava pelos clubes britânicos, o doc mostra sua transformação em potência global que, mesmo sem exposição radiofônica e longe do imediatismo da trilha sonora contemporânea das mídias sociais, enfileira uma coleção de turnês mundiais em estádios lotados. Se não é o registro definitivo das entranhas da banda, apresenta-se como retrato musical empolgante da palavra da Donzela de Ferro, pregada há décadas para um séquito apaixonado e, claro, eclético em sua composição.
O documentário, apesar de ser parte da produção artística da própria banda, é absurdamente honesto. Montado com imagens de arquivo e narrado por uma coleção de fãs (dentre eles o ator Javier Bardem e os músicos Tom Morello, e Gene Simmons), o filme explica a gênese do mascote Eddie e constrói sua narrativa em momentos pivotais da história da banda, o que inclui um show na Polônia ainda atrás da Cortina de Ferro e a apresentação histórica no Rock in Rio em 1985.
Entre tragédias e triunfos, aborda a demissão de seu vocalista original, Paul Di'Anno, mergulha no atrito entre Harris e o "novato" Bruce Dickinson e aborda a fase apagada com o vocalista Blaze Bayley - Dickinson justifica seu retorno de forma dolorosamente sincera: "Senti falta de tocar em estádios".
Foi com esse espírito sincerão que Bruce Dickinson conversou com o TOCA, à vontade na sala de sua casa, num papo que trafegou pelo atual momento crítico da indústria musical, inteligência artificial, o prazer de se apresentar ao vivo, a despedida do baterista Nicko McBrain, política e, claro, sua admiração por uma certa Stefani Germanotta. Little monster, sim!
TOCA - Lady Gaga disse certa vez que gostaria de ter uma carreira como a do Iron Maiden, na estrada por décadas e ainda lotando estádios. Com a banda completando 50 anos, o que ainda te empolga para se apresentar para uma plateia gigante?
Bruce Dickinson - Bom, o que me empolga para tocar para uma plateia enorme é tocar para uma plateia enorme! (risos) É isso, essa é a resposta! Você respondeu a sua própria pergunta! (risos) Nada é melhor do que se apresentar para um público que presta atenção em cada nota, em cada palavra. É como contar uma história em grande escala. Por sinal, Lady Gaga não precisa se preocupar, acho que ela está se saindo muito bem. Ela é provavelmente minha artista favorita em muito tempo, ela é autêntica, sabe? Quero deixar registrado que eu adoro a Lady Gaga!
Bruce, eu estava na última apresentação do Iron Maiden em São Paulo, quando Nicko McBrain anunciou sua aposentadoria. Foi um show emocionante porque ninguém fazia ideia que seria um marco. O que essa decisão significou para você não só como parte da banda, mas também como seu amigo?
Bom, como amigo do Nicko eu fiquei muito feliz porque ele está super saudável, cheio de coisas para fazer. Acho que ele está aproveitando a vida. A gente vai se encontrar em algumas semanas em um evento em Kansas City, estamos sempre nos esbarrando. Ele deve tocar bateria com alguns amigos porque, claro, ele continua tocando! E eu acho fantástica a forma como ele é retratado no documentário, porque ele é um sujeito sensacional. Nicko é um grande amigo e um baterista lendário! Acho que ele tomou a decisão certa porque ele está saudável, ele está ótimo. Muito melhor do que a gente! (risos)
"Iron Maiden: Burning Ambition" cobre a trajetória da banda desde o começo, antes até de você fazer parte. Como era a cena do metal na época e que paralelo você traça com a indústria musical hoje?
Não existe comparação com a indústria musical atual. A indústria hoje está uma bagunça, fragmentada, eu vejo todo mundo preocupado em manter o emprego. Eu converso com gente das gravadoras e tudo que eles pensam é que serão substituídos por algum assistente feito por inteligência artificial, e eles provavelmente não estão errados! Tudo isso é catastrófico para a música, música de verdade. Música ao vivo que não é feita por computador, música que não precisa de faixas pré gravadas para ser executada ao vivo. Esse é o lado negativo.
Mas existe o outro lado da moeda?
Claro, o lado positivo é que o ser humano é imprevisível. É por isso que somos humanos e sempre vamos achar uma maneira de f***** o sistema. Então eu não sei onde vamos parar em termos musicais, mas tenho certeza que não será nenhum lugar apontado por alguma IA. Humanos seguirão sendo humanos.
Bruce Dickinson em ação à frente do Iron Maiden no documentário 'Burning Ambition'
Como o Iron Maiden se encaixa nesse futuro?
Bom, estamos numa posição privilegiada de reunir plateias enormes e ainda tocar tudo ao vivo. Então não somos exatamente o exemplo para julgar o estado da indústria musical. A pressão está nas bandas menores, que são forçadas a fazer tudo sob o prisma das redes sociais e da IA. Vai ser curioso ver como tudo pode se desenrolar. No começo do Maiden tudo era ao vivo, tudo acontecia no boca a boca. Não existia internet, ninguém estava online. A turma chapava num show, ligava para os amigos e na semana seguinte tinha o dobro de gente -- ou não, depende de quem conta a história. (risos). Nesse contexto, o Maiden foi um fenômeno com uma base totalmente popular. Eles tinham seguidores, literalmente fãs que os seguiam por cada show.
Foi nessa época que você conheceu a banda?
Eu cantava em outro grupo, o Samson, havia todo um circuito de bandas que basicamente tocava nos mesmos clubes. Então às vezes tocávamos sozinhos, às vezes a gente dividia o palco com duas ou três outras bandas. Não era raro o Samson se apresentar com o Iron Maiden. Daí teve um show que a gente ia tocar por último, o Maiden entraria como convidados especiais no meio da noite e foi a oportunidade perfeita para vê-los ao vivo. Então eu encostei num canto, vi o show e fiquei de queixo caído. Eles eram incríveis, e tudo que eu pensava era por que não estou cantando com eles? (risos) Um ano e meio depois, eu estava.
Você já esteve no Brasil dezenas de vezes desde que o Iron Maiden se apresentou no primeiro Rock in Rio em 1985. Como você define sua relação com o Brasil?
O Brasil sempre é uma viagem de grandes descobertas, até porque eu conheço, sei lá, um quarto do que é o Brasil, acho que nem isso! Quando fomos pela primeira vez ao Rock in Rio, isso no século passado, ninguém sabia muita coisa sobre o Brasil, nem mesmo as bandas mais famosas. Daí voltamos para a Inglaterra espalhando a palavra sobre como o Brasil era esse lugar incrível, estávamos mesmo encantados com o público. E a turma dizia, "ah, tá, Brasil, eles meio que não sabem nada sobre música e seu dinheiro não vale nada, então nem vale a pena perder tempo." A gente comprava a briga, porque as pessoas no Brasil eram mesmo espetaculares. Muitas bandas que se apresentaram no Rock in Rio não queriam voltar, mas a gente fez questão porque os fãs faziam tudo valer a pena.
O Iron Maiden nunca foi visto como uma banda política, sua inclinação sempre foi lapidar histórias fantásticas em sua música. Ao mesmo tempo, vocês também derrubaram barreiras em todo o mundo, unindo pessoas de diferentes campos ideológicos sob a mesma bandeira musical, o que é fascinante. Como você vê o heavy metal como força capaz de conciliar visões de mundo tão diversas?
Eu concordo 100 por cento contigo, Roberto, sobre essa coesão social que acontece em um show do Iron Maiden. Nosso público tem religiões diferentes, raças diferentes, escalas de salário diferentes, de banqueiros a encanadores aos desempregados. Eles estão juntos pelo Maiden. Eles conversam sem a menor preocupação em ser julgados e eu acho incrível que conseguimos essa atmosfera em todo o mundo. Seria ainda mais incrível se as pessoas pudessem parar de jogar bombas uns nos outros e todas essas coisas terríveis que estão acontecendo hoje. Eu queria que o Maiden fosse a primeira banda de rock a tocar em Teerã, porque temos muitos fãs no Irã. E também temos fãs em Tel Aviv, em Kiev, em Moscou. Todos esses países em guerra e eu queria todos juntos num show do Iron Maiden sem ninguém tentando matar ninguém. Eu sei que é ingenuidade de minha parte, mas é isso. Queria poder fazer isso acontecer, é triste saber que não vai ser tão cedo.
Esse não seria um pensamento político?
Bom, nós não apoiamos nenhum movimento político em particular, seja de esquerda ou direita. Obviamente temos nossas próprias opiniões, mas são opiniões de indivíduos. Como um grupo, acolhemos a todos que concordam que, na hora do show, todos estão juntos pelo Iron Maiden. E todos são bem-vindos. Extrema esquerda, extrema direita, seja o que for. Não nos importamos, só apareça e não seja um babaca. Você está num show do Iron Maiden, paz e amor e seguimos em frente. Coesão social por meio da música, respeito e compreensão mútua. Sinceramente, é o melhor que podemos fazer.
Fonte: https://www.uol.com.br/toca/noticias/2026/05/07/bruce-dickinson-fala-sobre-doc-do-iron-maiden-e-revela-adoro-lady-gaga.htm


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