[ RESENHA ] - Iron Maiden, o Teatro e a terra permeada pela arte


Por Murilo Araujo/IMB

O teatro teve como berço a Grécia antiga (datado no séc VI a.C), embora sua origem possa ser considerada vinda de um tempo ainda mais remoto, antes mesmo de se tornar um ritual de culto ao deus do vinho, da loucura e fertilidade Dionísio.

Os tempos mudaram, hoje o teatro evoluiu para inúmeras outras formas, mas sempre com o mesmo objetivo: expressar sua paixão, angústia e anseios através da arte. Hoje temos maior facilidade em acessar e consumir a cultura em suas mais diversas formas e camadas. A distinção de classes, raça e gênero, embora ainda existentes, é menos comum, e isso é algo muito bom! O que nos tempos antigos era algo que estava ligado e destinado apenas para os homens e mulheres abastados, hoje é acessível para crianças, idosos, homens e mulheres, independente do seu poder aquisitivo.


Mas o que o Iron Maiden tem a ver com tudo isso? Tem muita coisa a ver! A banda em si é teatro puro, é a mais pura expressão de arte através da música, tudo isso dentro de um espetáculo audiovisual que impressiona até mesmo quem não está inteirado com o Heavy Metal. E quem está presenciando, se torna um grupo só, sem distinções, todos com o mesmo objetivo.

Sem mais delongas na didática introdução, a tarde de domingo na cidade de São Paulo no dia 06 de outubro estava com um clima agradabilíssimo, uma temperatura amena e sem aquele sol que castiga quem veste preto, diferente de uma sexta-feira de céu azul limpo e o sol radiante como estava dois dias antes agraciando a todos presentes no Rock In Rio. A atmosfera trazia aquela paz e ansiedade, e isso potencializava ainda mais quando no transporte público, a caminho do Morumbi, avistávamos um de nossos iguais. O espetáculo era iminente.

A longa espera nas filas foram superadas por boas conversas entre amigos, muitos ali no qual a amizade nasceu de grupos em redes sociais, unidos por uma paixão única. Nos relógios, as quatro horas da tarde já eram anunciadas e a ansiedade deu lugar a apreensão, pois em primeiro momento a fila parecia não andar, a impressão é de que haviam esquecido de abrir os portões. Mas aberto os portões, cruzando as catracas, a corrida se iniciava! Muitos indo para a pista, buscando o melhor lugar para assistir o espetáculo, outros corriam para os estandes onde os produtos oficiais eram comercializado e os demais foram atrás de sua cerveja, água, alimentos e também aliviar as necessidades para não sentir aperto durante os shows.


Os anfiteatros que serviam de palco para os rituais de teatro até hoje existem e são bem modernos e muito bem utilizados, mas atualmente dividem espaço com os templos gigantescos, que também podemos chamar de estádios de futebol. O Estádio do Morumbi é um desses templos, e para a magnitude de um show do Iron Maiden, nada mais justo do que esse histórico estádio para aportá-lo.

Todos a postos. O aquecimento ficou a cargo mais uma vez dos jovens rapazes do The Raven Age que, diferente de 2016, durante a turnê do álbum 'The Book Of Souls' onde contou com o apoio dos veteranos do Thrash Metal americano Anthrax, ficaram sozinhos com a responsabilidade de abrir o show da Donzela. A apresentação pareceu não convencer tanto o público presente, que clamava por Iron Maiden a cada pausa entre as músicas. Mas apesar de muita indiferença, ainda assim a banda de George Harris, o filho do Homem, foi bem recebida e agradeceu ao público pela audiência. Estava quase na hora.

Uma sirene disparou, junto com ela, nossos corações. A instrumental 'Transylvania' do álbum de 1980 'Iron Maiden' foi disparada nos PA's do Morumbi e instigava o coro do público enquanto nos telões era feita a divulgação do jogo mobile e inspiração dessa atual turnê, "Legacy Of The Beast". Minutos depois, a tensão. No palco, aqueles que estavam mais próximos podiam ver soldados trajando suas fardas enquanto removiam os panos, descobrindo o cenário de um campo de guerra. O primeiro Ato estava próximo. Os PA's do estádio emitiam os primeiros acordes da música que está intrínseca ao Iron Maiden: o clássico do UFO, Doctor Doctor! Nesse momento os arrepios se intensificavam, alguns mergulhavam em lágrimas e cantavam em uma só voz. Ninguém mais estava ali, todos foram transportados para um mundo onde a história ganha vida. O ESPETÁCULO COMEÇOU.





Ao fundo do palco, no cenário com um céu cheio de nuvens, os motores do Supermarine Spitfire foram ligados, Winston Churchill realizou seu discurso. Ali não era o lugar para se render! O Spitfire decolava sobre nós. Mergulhamos bruscamente na segunda grande guerra! Como uma forte pancada, a bateria de Nicko McBrain acompanhada de todo o arsenal de Adrian, Dave, Janick e Steve nos levava a uma batalha sem precedentes pelos céus enquanto Bruce nos comandava. O voo foi alto, e estávamos voando para viver aquele momento. 'Aces High', meus amigos. Já éramos parte do Legado da Besta.



Sem tempo de respirar, fomos imersos no inverno nos Alpes do sul da Baviera, onde junto com um velho e destemido soldado camuflado na neve com um casaco branco, chegamos aonde apenas as águias ousavam. Completamos a missão. O desafio foi cumprido. Dave Murray ditou a trilha dessa batalha de maneira rápida e magistral, acompanhado de sequências simplesmente absurdas de todo o aparato de Nicko. 'Where Eagles Dare' retornava ao setlist após 14 anos. Ninguém ainda conseguia respirar, a tensão da Guerra Fria já nos dominava e o relógio estava longe de marcar meia-noite, mas '2 Minutes To Midnight' tratou de nos aproximar do fatídico horário que era o prenúncio para o fim do mundo. Adrian deixou evidente que sua noite estava mais que inspirada e nos agraciou com um belíssimo solo e riffs agressivos.




No piscar de olhos, fomos transportados para a Idade Média. O cenário da guerra contemporânea deu espaço à uma luta épica, e guiados pelo bravo cavaleiro Bruce "William Wallace" Dickinson, bradamos fortemente pela liberdade de nosso território. Aquele canto da cidade São Paulo por uns minutos se tornou Escócia. Erguendo sua espada Bruce mais uma vez nos conquistou. Somos partes do Clã. 'The Clansman'.

Voltamos para a idade contemporânea. Em meio a Guerra da Criméia, pudemos acompanhar o segundo embate entre Bruce e o mascote Eddie, que na turnê de 2016-17 teve seu coração arrancado diversas vezes para o ritual do Livro das Almas. Agora trajando a farda vermelha que Bruce costumava utilizar em todas as vezes que cantava 'The Trooper', Eddie desafiou ele a recuperá-la. A batalha de espadas foi mortal. Mas em uma guerra, só um lado sobrevive. Bruce, em sua última investida, saca seu mosquete ostentando a bandeira do Brasil, que levou o público ao delírio. Quando o velho Bruce puxou o gatilho, todos nós sentimos o impacto. O forte disparo deixou mais de 60 mil pessoas com o corpo dormente, garganta seca, cada um no seu mundo assimilando o que aconteceu. Não teve lágrimas, só sorrisos.



A guerra acabava ali, junto com todo o intenso primeiro Ato do espetáculo.

O mundo das guerras ruía, e em meio aos barulhos de pedras e blocos sendo arrastados e encaixados, uma catedral foi erguida. Um barulho de trovão deu início ao ritual religioso. O sacerdote Bruce nos guiou com suas palavras em uma belíssima performance. Ao fundo os vitrais davam a beleza ímpar que é tão marcante nessa atual turnê. O instrumental de 'Revelations' é realmente marcante, principalmente por mostrar toda a qualidade e entrosamento de Dave com Adrian, que desta vez executou o solo da música. Isso é algo que podemos notar, já que no Rio de Janeiro foi Janick Gers quem realizou o solo. Os dois estão fazendo um revezamento. Não havia tempo ruim ali, estávamos todos unido e animados.



O Ato da Religião já havia começado.

Como nada pode ser aceito cegamente, fomos questionados: Por que tudo é feito pelo bem maior de Deus? Guerra, destruição, miséria, fome. A religião nos deve respostas. Com uma das mais belas interpretações, Bruce nos indagou. Com uma das mais belas interpretações, Bruce nos encantou. For 'The Greater Good Of God' foi a primeira música do álbum "A Matter Of Life And Death" e marcar presença no setlist em apresentações no Brasil.



O paganismo para a religião cristã é algo que pode ser considerado antagônico, pois foge de seus dogmas e costumes. Nossa hora já havia chegado, e como num ritual, o público de São Paulo pulou com 'The Wickerman', cantando o refrão a plenos pulmões. Aqui deixou registrado como Adrian é um guitarrista genial. Essa música tem suas digitais. Que solo foi aquele, Mr. Adrian Smith?




O mundo pagão deu espaço para um palco em chamas. Um monge a espera do dia do julgamento questionava se ele merecia tudo o que Deus lhe oferecia. Sua fé foi posta a prova. Em 11 minutos 'Sign Of The Cross' nos prendeu, o sinal da cruz nos guiou para uma incrível e impressionante performance de Dave, com um solo absurdo e veloz. 


O Ato da Religião deu espaço a Mitologia.


O fogo no céu no céu nos levou para Creta, em um mundo de mitos onde, voando como uma águia e tão alto como o sol, acompanhamos Ícaro e seu pai Dédalo na fuga do labirinto do Minotauro. Bruce com seu lança-chamas incendiou quem estava ali presente. E aqui destaco a performance absurda de Adrian, mais uma vez. 'Flight Of Icarus' sem dúvida alguma é o ponto alto da turnê! Diferente de Ícaro, não havíamos caído na realidade ainda.


O palco escureceu. A plateia ficou imersa na escuridão. Você tem medo do escuro? O público presente no estádio demonstrava que não. Em um espetáculo de luzes de celulares e isqueiros, em um gigantesco coro, 'Fear Of The Dark' continua sendo a música que dá certo ao vivo. Bruce, como um ótimo personagem e guia, trajado de sua capa, máscara e lampião, nos guiou para um lugar nas profundezas, que estava bem iluminado.


Do Mito ao Inferno. A noite em São Paulo estava fria, mas 'The Number Of The Beast' tratou de esquentar tudo com as labaredas, as lavas ao fundo do palco e uma atuação infernal de Bruce, que com seu estridente grito deixou o público imerso em uma experiência única. 'Iron Maiden'. No inferno conhecemos os instrumentos de tortura, mas não sangramos. Não podíamos ver e nem enfrentar a Donzela, só sentí-la. O Iron Maiden nos pegou. Steve Harris, Dave, Janick, Adrian e Nicko usaram de toda a potência dos PA's para entregar uma experiência sonora que atingiu a todos, como inúmeros golpes. O gigantesco Beast Eddie surgiu com seu olhar matador, subjugando todos que ali estavam. Novamente o Iron Maiden nos pegou.



O drama estava próximo de seu fim. Do Inferno ao Mundo dos Homens. Eis o último Ato.

Uma vez disseram que a bondade feita pelo homem é enterrada junto com seus ossos, ficando apenas o mau assolando a todos para sempre. Mas a música do Iron Maiden é certa de que durará pela eternidade, é boa demais para ser esquecida. Em 'The Evil That Men Do', todos os integrantes da banda mostraram isso. 

Dentro de uma cela fria o público de São Paulo fez seu último pedido: que essa banda dure para sempre. Santificado seja o velho Bruce! Uma performance excepcional e épica que deixou claro que, não só ele, mas a banda tem muito fôlego para gastar ainda. Que virada de bateria foi aquela do Nicko durante o desfecho de 'Hallowed Be Thy Name'? Que entrosamento incrível do quarteto de cordas guiados por Steve, uma performance emocionante. Santificado seja o Iron Maiden! 




Desça do seu cavalo e beba seu leite, Cowboy! O show infelizmente estava no fim, ninguém queria correr para as colinas, a vida de todos estava ali no Morumbi, entregues a maior banda de heavy metal do planeta. Mas os velhos cowboys precisavam ir, e montados em seus cavalos, nos entregaram o clímax da apresentação. 'Run To The Hills' foi cantada por todos, que extravasaram as últimas reservas de energia como forma de aproveitar aqueles últimos minutos de espetáculo. Em um show pirotécnico, Bruce escapou de inúmeras explosões e se despediu com uma... explosão! Acionando o dispositivo de dinamites, o show de faíscas tomou conta e esse foi o adeus do Iron Maiden e sua passagem com a turnê Legacy Of The Beast pela cidade de São Paulo.



Com uma apresentação teatral e visualmente incrível, os mais de 65 mil presentes nesse espetáculo saíram do Estádio do Morumbi anestesiados, felizes, comemorando e comentando sobre os detalhes que presenciaram. Ali todos estavam olhando para o lado bom da vida. A chuva deu as caras na saída do estádio, mas quem se importa? Sonhos foram realizado, nada atrapalharia.

São Paulo ficou pequena perto do que aconteceu no dia 06 de outubro. Uma cidade que respira arte e está tão acostumada com grandes espetáculos se curvou à magnitude da Donzela de Ferro. E não teve clima de adeus. É apenas um até logo.












Sobre Murilo Araujo

Murilo Araujo

0 comentários:

Postar um comentário