[ BRUCE DICKINSON ] : nós nunca faremos uma turnê de despedida


Entrevista original em espanhol, adaptado para português.


Em sua décima primeira (11ª) passagem pela Argentina, o Iron Maiden realizou no último sábado (12/10) a apresentação da Legacy Of The Beast Tour no Estádio José Amalfitani, que pertence ao clube de futebol Vélez Sarsfield e está localizado em Buenos Aires, capital do país.

Pouco antes de subir no palco, o vocalista da Donzela, Bruce Dickinson, cedeu uma entrevista para o jornal local Clarín. O rico diálogo que abordou diversos temas envolvendo música, política, projetos pessoais e o futuro do Iron Maiden você confere logo a seguir.


Primeiramente, Bruce comenta sobre o título de "Visitantes de Honra" da cidade, recebido no dia anterior ao show, na Câmara dos Deputados do país.
Ontem foi fantástico. Inesperado.  Nós sabíamos, mas quando vimos o que era: 'Uau!' Algo realmente incomum. A última vez que recebi esse reconhecimento foi em Sarajevo, onde me deram a 'Freedom Of The City' (reconhecimento honorário concedido pela cidade) depois de fazer um show lá, em meio a guerra. E agora eu tenho Sarajevo e a Argentina".


Sobre a contradição de um artista do gênero Rock, que sempre foi um movimento de contracultura, celebrar o reconhecimento vindo de uma instituição política, Bruce responde.
"Meu sentimento sobre política e rock é... Desde o começo, vi muitos músicos abrirem a boca para dizer coisas estúpidas e tocar bobagens, apoiando uma ou outras causas. Quando, de fato, a única razão pela qual eles têm essa possibilidade é por causa da popularidade de sua música, e não porque eles têm um cérebro especial, nem porque eles estudaram. Existem algumas exceções, como Peter Garret, o cantor da banda australiana Midnight Oil, que fez a música 'Beds Are Burning'. Ele é um verdadeiro exemplo de quem fala sabendo o que diz. Apaixonado por cuidar do meio ambiente, a ponto de deixar o Rock and Roll para se tornar um político e fazer algo a respeito, como Ministro do Meio Ambiente, Cultura e Artes. Não há problema. Mas os músicos geralmente abrem a boca sem pensar, porque acham isso legal. Eles dizem: "Sou contra tudo, sou contra o establishment". E qual é o establishment?"

"O establishment é uma coisa esta semana, e a próxima semana é outra coisa. O que a música faz, para mim, faz fora do establishment. Você é a favor ou contra? Apenas ignore, porque a nossa vida, é uma vida de imaginação, de contar histórias e, sim, é também uma maneira de escapar. Eu sei que existem pessoas que dizem que isso é ruim. Mas não! O que acontece quando você assiste a uma partida de futebol? Por um tempo você foge de toda essa merda em sua vida diária. Você vai a um estádio para ver 22 pessoas, para se conectar com paixão, com emoção... 

Para mim, a analogia entre esporte e música é muito estreita, e acho que nosso trabalho como músicos é dar às pessoas permissão para sonhar. Algo que poucos políticos fazem. A maioria deles fazem grandes discursos e então nada acontece. E quando você descobre que existe alguém que faz alguma coisa acontecer, ninguém gosta, porque não gosta que as coisas mudem. No mundo da política, quando os políticos pretendem aplicar uma agenda específica, sempre irritarão alguns, seja da direita ou da esquerda. E para as pessoas que estão com raiva, você sabe... A vida continua. Depois de cinco anos zangado com a política, você ainda está vivo. E outros cinco anos estão chegando, e mais cinco... E o que você vai fazer? Você vai a um jogo de futebol ou a um show do Iron Maiden, que é um lugar intenso onde todos estão unidos."


Reforçando sua própria fala, Bruce completa:
"Não importa a qual partido político pertencem aqueles que vêm nos ver, não importa se são da direita ou da esquerda; Todos eles podem estar de acordo com as mesmas ideias. É uma coisa linda. Agora, também pode ser que haja quem não concorde. Pegue o exemplo da música e veja: você pode ter opiniões diferentes, mas não precisa se matar."


Algo dessa filosofia parece funcionar dentro da banda, que está prestes a completar 45 anos e continua viajando pelo mundo e dando aulas de Heavy Metal com dedicação e entusiasmo dignos de qualquer iniciante.
Não há como nosso trabalho se tornar rotina. Cada show é diferente. Toda vez que você entra no estádio, é como se você fosse um gladiador ', diz Bruce.


Sobre a sensação de estar no Iron Maiden ser a mesma que digladiar e o caso recente de intervenção cirúrgica pelo qual passou, ele comenta:
"Há algumas questões que ajudam nesse sentido. Você sabe que cerca de cinco anos atrás eu tive câncer de língua, então sou um homem de sorte. Primeiro, por estar aqui; Segundo, por estar cantando. Além disso, há cerca de cinco meses, meu tendão de Aquiles se rompeu. Ninguém sabe. Fiz uma cirurgia e, quando fui fazer fisioterapia, porque não conseguia andar, perguntei quanto tempo a recuperação iria durar. O médico me disse que a reabilitação levaria em torno de seis meses e um ano, e minha resposta foi: Ok, temos um pequeno problema, porque começamos uma turnê em sete semanas. O que podemos fazer?!" E eu o fiz. No começo foi um inferno, porque não tinha força no músculo.".



Ainda sobre o processo de recuperação, adaptação e atuação nos shows, diz:
"Está melhor, mas ainda está fraco. E não dói,  o que machuca é o quadril, por andar tanto por causa do problema no meu pé. Mas está ficando bom, melhora dia a dia. Então, eu tenho muita sorte de permanecer no palco."


Falando sobre o futuro do Iron Maiden com uma possível turnê de despedida, o vocalista exclama: "Nunca haverá nada disso. Nós nunca faremos um tour de despedida. Nunca. De qualquer forma, se chegarmos ao final de uma turnê e não fizermos mais, essa será a despedida. Mas ninguém saberá com antecedência. Nem nós. Eu não acho que queremos fazer isso. Continuaremos até parar de gostar."


Sobre a ideia do Legado da Besta e a composição do setlist para a turnê e que representam a essência e o legado do Iron Maiden, falou.
"A verdade é que temos 16 álbuns para escolher. Depois, escolhemos músicas baseadas em três eixos temáticos: guerra, religião e inferno. Isso foi como um guia para pegar tópicos que falam sobre esses problemas e adaptá-los à preparação. Mas havia muitas músicas que não podíamos incluir, que não fizemos nessa turnê. Então poderíamos fazer outra turnê Legacy com um repertório totalmente diferente."



Em relação a composição e definição do formato das apresentações, Bruce esclarece.
"Primeiro, há uma ideia básica, que criamos juntos. E então, o show é uma parte fundamental de mim. O traje muda, a luta de espadas com Eddie, o lança-chamas..." e ainda completa: "as vezes pode ser perigoso. Eu me queimei algumas vezes (risos). Em algumas ocasiões, estraguei minhas calças ... Mas é divertido. Se algo não parece perigoso, não é divertido!"



Bruce Dickinson é um homem multifacetado e todos nós admiramos sua capacidade de conciliar sua vida de vocalista do Iron Maiden com sua rotina empreendedora, artística e filantrópica. O que o faz se distanciar do esteriótipo de rockstar. Sobre isso, ele comenta.
"Hoje posso lhe dizer o que vou fazer daqui até o Natal. Estou muito ocupado. Literalmente, depois do show no Chile, vou a Londres, chego às 7 da manhã, tomo banho, de lá vou a uma conferência com engenheiros, depois visto uma porcaria de gravata preta para assistir a um jantar de caridade; no dia seguinte, tenho uma conferência, depois uma reunião com potenciais investidores da minha empresa e, finalmente, irei a um pub com meus filhos (Dickinson tem três filhos, de 25, 27 e 29 anos). No sábado, nos encontraremos novamente, depois vou para Paris, onde moro com minha namorada, e na segunda-feira começo a treinar esgrima, até quinta-feira. Será o meu retorno ao treinamento depois que rompi a merda do tendão de Aquiles."



Sobre o esteriótipo de consumo de bebidas, drogas e devassidão que cerca a imagem das estrelas do rock, ele completa.
"Nunca o fiz. Eu amo cerveja... Mas nada mais. Também tenho alguns workshops, em Zagreb, em Viena, e depois outro em Londres, e depois vou ao Canadá para participar da homenagem pelos 50 anos do Concerto Deep Purple para Grupo e Orquestra. Eu também tenho meu álbum solo pendente, que será lançado no próximo ano ou no próximo. Eu atravesso espaços diferentes, tenho interesses diferentes."



Muitos temem pelo futuro do Heavy Metal, ainda mais com o avanço da tecnologia na indústria musical e a dificuldade que essa traz para os novo músicos. Bruce é pertinente em sua colocação em relação a esse tema assim como as futuras bandas que um dia carregarão o legado do gênero musical.
"Sempre existem bandas assim. Sempre há música nova. Uma das grandes vantagens dos avanços na distribuição de música é que ela se tornou muito acessível a todos e isso faz com que a maioria das crianças cresça com muitos tipos diferentes de música. Para mim, como músico, é fantástico. Mas o problema não é que exista ou não música nova, mas como as crianças que a fazem viverão disso. Como eles vão ganhar dinheiro? Porque a tecnologia levou a música para todas as pessoas, mas foi roubada daqueles que a fazem. Ela roubou a capacidade de ser pago por isso. Você ganha mais dinheiro como motorista do Uber. Você, como músico, dedicou toda a sua vida a estudar, tocar um instrumento, criar suas músicas... E provavelmente o homem que dirige um Uber é um músico, porque é a única maneira de ganhar dinheiro que permite que você coma. Eu acho isso vergonhoso. Embora, ao mesmo tempo, seja um testemunho de que essas pessoas não desistem. Você precisa criar. Enquanto isso, por outro lado, é trágico que muitas grandes corporações (Apple, Spotify...) tenham ganhado e ganhado tanto dinheiro com publicidade ou com o material de arquivo das empresas. Vivemos tocando ao vivo porque podemos, e se lançarmos um novo álbum, poderíamos fazê-lo mesmo que a distribuição seja gratuita. Mas para as bandas menores é realmente crítico. Eu vejo músicos de 24, 25 ou 26 anos, que continuam na estrada com uma van, como fizemos aos 18. Porque eles têm que fazê-lo."

Sobre seus hábitos após retornar de um show, o vocalista diz preferir beber ao ter que escutar algum álbum antigo.
"Eu tomo minha cerveja! Totalmente! Meu Deus, me escute...! Eu tento evitar isso. Eu prefiro me ouvir cantando agora. O som que temos agora é maravilhoso, estamos parecendo bárbaros."


Ele ainda completa sobre apresentar para grandes públicos.
"Além disso, tocando para tantas pessoas... Em São Paulo havia 60 mil pessoas, em Porto Alegre 40 mil. Aqui (Argentina), daqui a pouco serão cerca de 45 mil. Embora, honestamente, se eu pudesse, preferiria um lugar maior. Em uma próxima oportunidade. Isso é uma notícia muito boa para os fãs da banda saberem que haverá uma próxima, e certamente haverá."

Nos momentos finais da entrevista, Bruce Dickinson revela seus planos, incluindo um projeto ligado aos veteranos do Deep Purple.
"No Canadá, eles comemoram 50 anos do Concerto Deep Purple para Grupo e Orquestra. Eles contrataram uma orquestra sinfônica e perguntaram se eu queria ser o cantor. É claro que eu disse que sim, e então eles me disseram que tenho que cantar mais de cinco músicas da banda junto com a orquestra. Eu perguntei se poderia escolher quais músicas cantar e eles responderam que sim. Então eu escolhi: 'Hush', 'When A Man Blind Cries', 'Perfect Strangers', obviamente 'Smoke On The Water', e me sugeriram cantar 'Pictures Of Home', porque eles têm um ótimo arranjo para a orquestra"

Sobre o seu disco solo, Bruce finaliza.
"Eu tenho que terminar. Temos algumas demos, fizemos um pequeno trabalho. Ele será lançado no próximo ano ou no próximo, porque nesse meio tempo eu tenho muitas ocupações. Mas, sinceramente, eu gostaria de sair com uma pequena banda junto a Roy Z (guitarrista, produtor e compositor que já trabalhou com Dickinson) e fazer algumas turnês. Por que não, depois do que aconteceu com o Boxset Of Soloworks 1990 - 2005? Fizemos isso e vendemos 200 mil cópias físicas. Não acredito! É uma grande demanda de pessoas. Tenho orgulho do meu material solo"



















Sobre Murilo Araujo

Murilo Araujo

8 comentários:

  1. Não seria esposa em vez de namorada? Que eu saiba, ele é casado..

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    1. Também fiquei curioso com essa parte.

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    2. esposa = eterna namorada (só tô defendendo o estagiário que traduziu a entrevista kkk)

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  2. Que entrevista bacana, Bruce nos inspira a não ser um morgadão rotineiro rsrs

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  3. Baita entrevista, fazia muito tempo que não lia uma entrevista com conteúdo que não fosse óbvio.

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