ACCIDENT OF BIRTH - Uma análise sobre um dos melhores álbuns de Bruce Dickinson

ACCIDENT OF BIRTH - Uma análise sobre um dos melhores álbuns de Bruce Dickinson



Bruce Dickinson afirmou há pouco tempo que as pessoas deviam prestar mais atenção nos bebês. Na potência vocal deles.

Pois é. 

É bom aprender com quem tem uma das mais possantes vozes do Rock e Heavy Metal mundiais e tem uma honrada carreira nas bandas que esteve, está e na sua expressiva carreira solo


Sim, ter uma carreira solo é porte para quem pode. Ou seja, tem que ter culhões para dar um tempo numa banda como o Iron Maiden, se arriscar em terrenos diferentes e realizar seus próprios sonhos, bem longe da segurança de estar associado à uma sólida carreira musical e no auge de seus projetos.

Mas a carreira solo de Bruce já existia paralelamente. Desde os tempo de "No prayer for dying" que o garoto ainda cabeludo e com atitude headbanger, lançara o seu tão pessoal trabalho intitulado " Tatooed Millionaire" junto ao nosso já tão conhecido guitarrista Janick Gers.

 A fenda começava a se formar e então a ferida ia se tornar totalmente aberta com um "machado" e ficaria larga o suficiente para levar Bruce para um caminho potencialmente corajoso e individual.

Contou com as parcerias certas (especialmente com Roy Z) e culminou numa larga experiência para os fãs de Bruce conhecerem suas inusitadas e contraditórias faces de criação musical. 

O incrível Bruce Bruce*, maluquinho à dar saltos e apontar seu punho para cima e para a platéia, numa atitude absolutamente pesada, dá espaço para uma outra personalidade cativante e ao mesmo tempo estranha, inimaginável  porque que fugia do metal para abraçar acordes de um hard rock, um metal diferente, um estilo que podia viajar para vários caminhos e não saía de seu status quo, pois era um misto de tudo que representava ele mesmo!.



Talvez uma fusão de si (uma geniosa cabeça com idéias que migravam entre a sanidade e a insanidade) e a experiência de ser absolutamente integro na carreira exaustiva, no entanto única, com o Iron Maiden

Integridade essa que incomodou à Steve Harris quando já no segundo disco, Balls to Picasso, Bruce já havia enfiado o pé para fora da banda e se sentia seguro o suficiente para um caminho solitário.

Depois de Ball to Picasso, veio a estranha para uns, admirável para outros, experiência de Skunkworks e ao meu ver, finalmente, no final dos anos 90, mais maduro e mais decidido à governar muitas de seus projetos pessoais, surgiu o impressionante ACCIDENT OF BIRTH, com um dos Singles mais impressionantes: MAN OF SORROWS, que depois de Tears of Dragon, verteu lagriminhas em alguns de nós.

Mas o que é "Accident of Birth"?

É uma expressão que designa um fato, situação ou característica pessoal, que pode ser desejável ou indesejável, resultante das circunstâncias em que uma pessoa nasceu, e que, portanto, está completamente fora de seu controle. 

Por exemplo, uma pessoa nasce rica, porque nasceu numa familia de gente rica, uma pessoa nasceu principe porque era filho de um rei e uma rainha...e por ai vai...o famoso: " Já nasceu assim..." 

Também algumas pessoas insistem em dizer que esta frase veio da mãe do Bruce, o que pode ser também entre umas e outras, um fato inesperado seu nascimento, visto que seus pais eram adolescentes... Mas você vai se impressionar qual é de fato o tema deste disco.


Antes disso vamos falar da CAPA do álbum: A capa é  vermelha e a imagem estampada é de uma marionete de palhaço saindo de uma barriga... Porque essa imagem incomodou algumas pessoas na época, sendo censurado nos Estados Unidos por exemplo? 

A arte da capa foi feita por Derek Riggs, mais conhecido por ser o criador da mascote de Iron Maiden: Eddie

Existem quatro versões da capa do álbum:

1- O lançamento europeu regular com Edison - um bufão (ou palhaço) que foi apelidado de "Filho de Eddie"e que explode do estômago de um homem. A capa principal mostra um buraco qualquer, mas o cartaz que acompanha a edição limitada do álbum deixou claro que o estômago pertence a um homem.



2- Isso foi considerado demasiado explícito para o mercado dos EUA, onde o álbum foi lançado com uma visão frontal do boneco. As interpretações do desenho eram tão diferenciadas, tal como as pessoas tem visões diferentes sobre a Biblia, por exemplo.



3- O relançamento de 2005 também tem uma capa diferente. A manga de papelão exterior apresenta o marionete bufão pregado em uma cruz, enquanto a arte da capa no livreto de CD é a que mostra o bufão saindo do estômago do homem.



A edição estendida do álbum apresenta a mesma capa que o original, mas redimensionada de modo a tornar o homem não visível.



Então vamos à MÚSICA:

Quando se destrincha as 12 canções do albúm, este está junto à Chemical Wedding como um dos melhores discos da carreira de Bruce. Sua característica mais marcante é a transição definitiva para um trabalho mais maduro e consistente, que impressionou muita gente.

Bruce Dickinson tinha muitas vontades e muitas oportunidades. Avançou por todos os caminhos que pôde e apesar de citar os de cima, a estréia dele em Tatooed Millionaire foi realmente fantástico: Rasgado, esquisito, tosco e maravilhoso. Mas foi em Accident...que sua parceria com Roy Z e Adrian Smith, que isso pôde de fato florescer.

Álbum produzido pela ZOMBA MUSIC, fora a segunda vez que ele trabalhava com Roy Z, o casamento perfeito da carreira solo e recheado das possantes guitarras de ADRIAN, que logo também voltaria para “casa” anos mais tarde.





VAMOS CONHECÊ-LAS

Freak era um metal mais tendenciado a vertente que acompanhava a guitarra de Adrian. Com uma boa cadência acompanha a pergunta:

Who leads you to the dark secret?
Quem o leva ao segredo obscuro?
  
Toltec 7 – Tem estranhos teclados que marcam os interesses de Bruce pelo ocultismo. Dura poucos segundos e apenas diz:

Come closer, learn the truth
Come closer, learn the truth
Come...
Bless me, mother, for I have sinned

Quero dizer, você não prejudica
Venha mais perto, aprenda a verdade
Venha mais perto, aprenda a verdade
Venha...
Abençoe-me, mãe, porque eu pequei I mean you no harm


Starchild é bem mais gostosa de ouvir que a primeira. Tem uma pegada com bem mais identidade e Bruce pode usar bem seu material vocal. Starchild pode significar aquelas “crianças índigo” e que vieram ao mundo com visões acima do que se esperado.  Clique no nome para saber mais sobre isso...

Taking the Queen – “Who stole your heartbeat in the night?
Uma linda música para boas histórias de reis e rainhas...

Darkside of Arquarius traz à tona a discussão que devia permear as cabeças no final da década de 90, uma mudança de século, a chegada de uma nova ERA. O que realmente mudaria nessa mudança numerológica e decisiva para a humanidade. Iría-se progredir ou teríamos um declínio. Na década de 60, Jan Van Rijckenborgh relatou que essa nova Era, traria mais espiritualidade às pessoas. O retorno do DARMA. Linda música!

Road to Hell vem logo em seguida, numa verdadeira porrada sonora. Traz o lado inverso de toda esperança, ou melhor o CARMA não benéfico...O medo, a culpa... The road to hell is full of good intentions...(A estrada do inferno está cheio de boas intenções). Que música!

Como se não bastasse, eis que surge “Man of Sorrows” – Essa é mesmo pra chorar...(até ganhou versão espanhol – Homem triste) – A culpa e a vergonha é o tema desta música, que traz a tona a “criança” que há em nós...Aquela que parece se lamentar, depois do castigo que levou por ter desagradado seus pais, por exemplo. Aquele sentimento que algumas pessoas carregam do arrependimento... Lindeza PURA. A mais famosa do disco.

Accident of Birth é profunda e vai fazer um elo entre nascer e morrer. Música boa, título do álbum e dispensa mais informações e comentários.

The Magician é uma canção que como outras deste álbum, faz uma pré concepção do disco mais “místico” de Bruce em sua carreira solo, o Chemical Wedding. O mago em questão é alguém acima do bem e do mal. Provavelmente representa uma terceira pessoa, que não nem santo, nem pecador. Algo que chega mais perto do paganismo, do que de qualquer outra alusão....ou da própria natureza humana.

“The Magician is my name”

Welcome to the pit, já leva o sujeito para o inferno. Música feita pela dupla de sucesso Bruce & Adrian. Que parceria! Welcome to the hard place – Bem vindo à merda...ou melhor, ao lugar difícil! Destrincham aqui a parte complicada da vida. A guitarra de Adrian tem toda sua identidade e seus arranjos que tornam essa música com bom peso e consistência.

The Ghost of Caim é o fomento do tema bem relevante do disco: O bem, o mal e o que há entre eles...O fantasma de CAIM, é sim o lado negro da história da humanidade. O irmão que mata ao outro, pode ser a sombra de algo pesado e sombrio...a culpa.

Ômega é linda. 

We believed in heaven, we believed in angels, with arms of purest white, to hold us, catch us when we fall

 A definição de Deus para algumas vertentes religiosas, especialmente as cristãs é que Deus é Alfa e Ômega ou melhor, o princípio e o fim. Esta música apocalíptica pretende dar esperanças e um final feliz...

Arc of Space fecha lindamente este álbum. O laço entre o ESPAÇO e o TEMPO sela com primor as várias nuances da existência.

In my heart I reach you
In my heart I reach out to you
In my heart I touch the face of God
In my dreams somehow...
In my heart I reach you
In my heart I reach out to you
In my heart I touch the face of God
It's all a dream...

Em meu coração, eu alcanço você
Em meu coração, entrei em contato com você
Em meu coração, toco o rosto de Deus
Em meus sonhos de alguma forma ...
Em meu coração, eu alcanço você
Em meu coração, entrei em contato com você
Em meu coração, toco o rosto de Deus
É tudo um sonho ...

O responsável por esta música é a parceria de Bruce com as guitarras “ciganas” de Roger Ramirez.

Assim, Accident of Birth é uma profunda crítica e análise da existência...é um pouco de tudo que somos!

Ouça bem alto!





·         Bruce Dickinson  – Vocals
·         Adrian Smith  – Guitar
·         Roy Z  – Guitar
·         Eddie Casillas  – Bass
·         David Ingraham  – Drums




* Bruce Bruce foi o nome que Bruce Dickinson tinha como vocalista do SAMSON, uma de suas primeiras bandas e anterior ao Iron Maiden

Sobre Verônica Mourão

Verônica Mourão

9 comentários:

  1. Quarta capa: "tornar o homem INvisível"

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Rodolfo, obrigada pelo apontamento. Na verdade ali faltou um "não". Pois "não visivel" é diferente de "invisível". Pois a figura do homem estava disfarçada e não ausente. Mas valeu, abraço

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  2. Eu amo esse álbum!! Passei a usar em meu nome depois de ouvir essa música! Ela é emocionante e me faz chorar (assim como Arc of Space)! <3

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  3. Parabéns por mais uma resenha impecável Verônica Mourão ! Por entender que Adrian Smith sempre foi o responsável por dar "cara" ao som característico das bases marcantes das músicas do Iron Maiden, à época do lançamento fiquei extremamente empolgado ao saber que ele havia sido recrutado para a banda solo de Bruce Dickinson. Imediatamente entrei em contato com amigos da loja Hellion Records na Galeria do Rock de São Paulo e já encomendei meu exemplar, já que inicialmente não houve prensagem nacional. Isso inclusive foi "lembrado" por Bruce na espetacular apresentação ao vivo feita por ele no Festival Skol Rock em São Paulo, em 1997, que mostrou-se indignado pela demora no lançamento do álbum no Brasil. Quanto ao álbum em si, é uma obra-prima. Excepcionalmente bem gravado, todas as músicas (sem exceção) são espetaculares e com os temas "linkados", Considero-o como o melhor álbum da carreira solo de Bruce ( apesar de reconhecer também como obra-prima o Chemical Wedding ) e, seguramente, é um dos álbuns que mais ouço há muitos anos. O entrosamento entre Smith e Roy Z é impressionante (imaginei-o inclusive fazendo parte do Iron Maiden, tamanha a afinidade musical que demonstrou ao gravar álbuns e apresentar-se ao vivo ao lado de Smith). Ouvir Welcome to the Pit quase que diariamente tornou-se um "vício" musical que tenho na vida. Música espetacular !

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  4. Bruce Dickinson caiu fora do Iron Maiden após a turnê de Fear of the Dark (1992) para dar continuidade a sua carreira solo que havia sido iniciada quando ele ainda estava na banda de Steve Harris (vide o álbum Tattooed Millionaire, de 1989). Depois, vieram Balls to Picasso e o polêmico Skunkworks. Em seguida, Dickinson decidiu que já era hora de voltar ao estilo que o consagrou, mesmo estando longe da banda do chefão Harris. Para tanto, ele chamou novamente o produtor Roy Z, reencontrou seu grande parceiro musical Adrian Smith (que também estava fora do Maiden desde 1989) e o resultado veio com Accident of Birth, álbum que marca o retorno do músico ao heavy metal. Talvez o mais complexo álbum da carreira solo de Dickinson no quesito letras, abordando temas como ocultismo, religião e ficção científica; mas acho que ele faria algo melhor no ano seguinte, com The Chemical Wedding (o disco e o filme). Por fim, destaco a arte gráfica de Derek Riggs, que mostra o palhaço assassino Edison (filho do Eddie?) e seu bastão cheio de pregos estampando a capa.

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  5. Na verdade a capa que o rosto do homem não está visível é a versão simples do disco, ou a versão padrão como muitos chamam. A capa que mostra o rosto do homem é o encarte da edição estendida de 2005, que fica abaixo do slipcase onde o Edison está pregado na cruz.

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