O Velho Marinheiro e o Dirigível R101 - Estudioso revela semelhanças entre as canções

Por Fernanda Portugal

Por vinte anos, ‘The Rime of the Ancient Mariner’ foi a canção mais longa do Iron Maiden, com 13 minutos e meio. Com o lançamento, em setembro, do álbum ‘The Book of Souls’, o título passou para ‘Empire of the Clouds’, com seus 18 minutos.

Estudioso da obra da banda, o professor Lauro Meller, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, desvendou com exclusividade para o IRON MAIDEN BRASIL as semelhanças entre as duas faixas. “A primeira característica que me chama a atenção em ‘Empire’ é o fato de a sequência inicial ao piano, em G-Gb-E-D-E, ser idêntica àquela de ‘Rime’. Teria sido mera coincidência ou uma referência velada à faixa de 1984? Minha aposta é de que ali a banda acena com a cabeça e dá uma piscadela para seus fãs, como se dissesse: ‘eis a nova Ancient Mariner’”, afirma.

Outro “parentesco”, aponta Meller, Doutor em Letras pela PUC de Minas, é a “temática das viagens e das jornadas com desfecho trágico”. ‘The Rime’ é uma versão do poema homônimo de Samuel Taylor Coleridge (poeta romântico inglês), que narra a saga do Velho Marinheiro, único sobrevivente de uma maldição que atinge seu navio.
Já ‘Empire’ conta a história real do dirigível R101, construído pelo Governo Britânico no final dos anos 20 para transportar políticos e outras personalidades. Em sua viagem inaugural à Índia, em outubro de 1930, o R101 protagonizou uma catástrofe: caiu durante uma forte tempestade ao sobrevoar a França, matando a tripulação e os passageiros.

Segundo Meller – que é guitarrista e baixista –, o equilíbrio entre as partes de ‘Rime’ faz dela uma grande composição. “Ela se inicia a pleno vapor, e alterna breques, soluções harmônicas criativas (como na parte ‘There, calls the mariner – there comes a ship over the line etc.’) e um interlúdio instrumental que busca recriar a atmosfera do navio repleto dos cadáveres dos marujos, ouvindo-se apenas o rangido da madeira e a sequência plangente de contrabaixo dedilhado e das guitarras explorando o botão de volume. Depois, no clímax da narrativa (quando finalmente o Marinheiro faz as pazes com Deus e cai uma chuva torrencial, aplacando sua sede), a canção explode numa sequência de solos antológicos”, descreve.

Em ‘Empire’, explica, a letra narra, passo a passo, a história do dirigível: sua descrição como a maior aeronave do planeta, o momento em que zarpa rumo ao Oriente, a tormenta que atravessa, o acidente e a desolação que se segue às mortes. O arranjo é construído de modo minimalista, segundo Meller: os vários elementos vão sendo introduzidos paulatinamente, à medida que a letra avança e que a história do dirigível e do acidente que o derrubou são narradas. O acompanhamento musical “comenta” todas as etapas dessa narrativa.

No final da letra de ‘Empire’, a repetição do verso “Dreams live on”, aponta Meller, não apenas é uma homenagem àqueles que pereceram no desastre, mas também uma referência intratextual com ‘Rime’, que termina com os versos “And the tale goes on and on and on and on”.

Com exclusividade para o IRON MAIDEN BRASIL, Meller – autor dos artigos acadêmicos
‘Temas Históricos nas Canções do Iron Maiden’, publicados na Revista Brasileira de
Estudos da Canção – fez um mapeamento da estrutura de ‘Empire of the Clouds’, com
marcações temporais e com alguns comentários sobre o arranjo.

00:00 – Riff inicial ao piano (em G-Gb-E-D-E / D-E-G-Gb etc.), depois acompanhado por guitarra e baixo;

00:35 – Riff da linha melódica principal, com piano, violino (e, depois, cello);

01:12 – Riff da segunda linha melódica principal, com piano, violino (e, depois, cello);

01:35 Retoma-se o riff inicial, ao piano, violino, cello e caixa da bateria (rufando em estilo militar);

02:06 Entra a voz de Dickinson, cantando as estrofes iniciais sobre a primeira melodia (“To ride a storm / To an empire of the clouds etc.”); arranjo idêntico (piano, cordas, caixa da bateria; guitarras discretas, apenas pontuando);

02:40 Segunda melodia é cantada (“Royalty and dignitaries etc.”);

03:10 Terceira melodia, instrumental (piano, cordas, caixa, guitarras discretas, apenas pontuando), depois voz (aos 03:36: “Mist is in the trees etc.”) ;

04:02 A bateria, a guitarra e as guitarras entram “a pleno vapor”, ao mesmo tempo que a voz de Dickinson, até então em registro mais grave, explode em registro médio-agudo, de acordo com o conteúdo da letra (“She’s the biggest vessel built by man / A giant of the skies / For all you unbelievers / The Titanic fits inside etc.”);

04:33 Na estrofe que se inicia por “In the gathering gloom / A storm rising in the West etc.”, o arranjo mantém-se igual, mas a voz pouco a pouco vai alcançando registros mais agudos (o primeiro deles, aos 04:40), semioticamente representando a impaciência de uma tripulação que quer partir, mesmo com as consições adversas – “We must go now, we must take our chance with fate / We must go now, for the politicians he can't be late”;

05:33 A estrofe que se inicia com “Sails to the sky” já traz a voz de Dickinson em registro plenamente agudo, indicando uma gradual tensão;

06:00 Essa tensão é reforçada com a introdução de uma frase melódica
repetitiva ao piano, que marca o seguinte diálogo entre um subordinado e o capitão:
“Said the coxswain, sir, she's heavy, she'll never make this flight / Said the captain, damn the cargo, we'll be on our way tonight.”

O diálogo nos remete à maior tragédia aeronáutica de todos os tempos, nas Ilhas Canárias, em 1977. O capitão de uma das aeronaves envolvidas (um Boieng 747 da empresa holandesa KLM) não teria aguardado a autorização da torre de controle para a decolagem, chocando-se em plena pista com outro “gigante dos céus”, um Boeing 747 da Pan-Am;

06:30 Volta o riff instrumental que abre a canção, desta vez não ao piano, mas com guitarras, baixo, bateria e teclado simulando cordas; a partir daqui, até a marcação 12:32 toda a execução será instrumental;

06:58 Primeiro turning point no acompanhamento, em que se ouvem sequências de batidas executadas pela bateria, pelas guitarras e pelo baixo em sincronia, gradualmente tornando-se mais lentas (rallentando) e em desenho melodicamente descendente, como que transpondo, no plano musical, a curva descendente da aeronave. Na realidade, essas batidas (três curtas, três longas, três
curtas) correspondem à sigla S.O.S. (Save our Souls ou Save our Ship), em código Morse;

07:19 Introduz-se novo riff de guitarra, seguida por passagem instrumental; primeiramente, a guitarra base, o baixo e a bateria apenas pontuam com “ataques” dos acordes principais (G – Em – C – G), passando a um ritmo contínuo a partir de 07:42. O desenho melódico da guitarra é executado em sucessivas modulações ascendentes, como que representando, semioticamente, a aeronave, que sobe;

08:29 Quebrando a passagem anterior, que sugere otimismo, novamente é a introduzida a sequência “S.O.S”, que desta vez abre passagem para uma sequência instrumental, a partir de 08:35, com um novo riff e andamento mais acelerado, e em que a bateria preenche o espaço sonoro com viradas sucessivas, contribuindo para o crescente clima de tensão, reproduzindo, semioticamente, a tempestade que a nave atravessa;

09:13 A essa sequência em que a bateria aparece de forma proeminente, segue-se mais um riff de guitarra, com ataques da bateria e do baixo. O riff começa a descrever acordes arpeggiados (seguidos, de forma muito discreta na mixagem, por um teclado em registro agudo, para dar maior corpo, a partir de 09:58), e essa será a base do primeiro solo de guitarra, em Em, C, Am, C, D, Em, C, Am, C, D, C, Em (etc.); 

10:04 Primeiro solo de guitarra (aprox. 134bpm – allegro), com a mesma base em Em, C, Am, C, D, Em, C, Am, C, D, C, Em (etc.);

10:35 Solo de guitarra continua, com mudança de andamento (aprox. 160bpm – allegro) e com tempo dobrado. A sequência harmônica é a mesma; 

11:00 Volta-se à sequência de arpeggios, sobre a mesma base, desta vez com teclados que simulam metais. Perceba-se a construção de gosto minimalista, em que se colocam e retiram, discretamente, elementos do arranjo;

11:50 Nova sequência harmônica (Am, F, Dm, F), que servirá de base ao
segundo solo, iniciando em 12:02. Provavelmente executado por Dave Murray, o solo
se caracteriza pelos legatti e pelo uso proeminente do wah-wah;

12:32 Os vocais retornam após uma longuíssima passagem instrumental (desde 06:28, em que Dickinson canta os versos “Now she sleeps into our past”), com os versos “Feeling the wind as it blows you”, cantados não apenas em registro agudo limite para o vocalista; percebe-se sua dificuldade em atingir as notas mais altas, o que pode ser lido como uma limitação técnica, mas que contribuem, semioticamente, para a construção da imagem de desespero que a cena toda sugere.

 É notável a contraposição entre o caos que se instaura a bordo e a metonímica imagem do “Norte da França, dormindo em seus leitos”. A menção a “Uma chance em um milhão”estabelece uma correlação com o desastre do Titanic e com a sua suposta indestrutibilidade:

Feeling the wind as it blows you
Feeling the beams as they pass you along
Watching the channel below you
Lower and lower, into the night
Lights are passing below you
Northern France, asleep in their beds
Storm is raging around you
A million to one, that's what he said

Nessa estrofe e nas que se seguem, temos a descrição do momento em que o dirigível atravessa a tempestade e começa a cair. A longa passagem instrumental citada acima inclui várias sequências harmônicas, mudanças de andamento, a passagem que simula o “S.O.S.” em código Morse, arpeggios e dois longos solos de guitarra.

12:56 Passagem sincronizada das guitarras, baixo e bateria, consistindo em novo riff. A execução é feita por meio de “ataques” desses instrumentos; apenas em 13:16 a bateria entrará com uma condução contínua sobre esse mesmo riff. Todo esse interlúdio é apenas instrumental;

13:38 Volta a mesma estrutura harmônico-melódica que havia se iniciado no verso “Feeling the wind as it blows you” para que se introduzam os versos seguintes, em que a metáfora da morte surge (“Reaper”), e em que é feita a descrição do problema técnico que derrubou o R101: o rasgo no revestimento externo, que permitiu que a água da tempestade a inundasse, tornando-a pesada, ao mesmo tempo que o hidrogênio, responsável por sua sustentação (“lifting gas”) escapava.

Reaper standing beside you
Wind inside cuts to the bone
Panicked to make a decision
Experienced men, asleep in their graves
The cover is ripped and she's flooding
Rain is flooding into the hold
Bleeding to death and she's falling
Lifting gas is draining away

14:04 Retomada do riff que apareceu pela primeira vez em 12:56; desta vez, não há “breques”, mas uma condução contínua; 

14:25 Toda a música para e ouve-se uma melodia ascendente e descendente
executada no piano e nas cordas, sugerindo tensão. A banda desfere alguns acordes, pontuando essa melodia; à medida que o som da banda sai, em fade out, permanece apenas o riff do piano;

15:11 São introduzidos os versos “We're down lads, came a cry, bow plunging from the sky / Three thousand horses silent as the ship began to die / The flares to guide her path ignited at the last / The empire of the clouds, just ashes in our pastJust ashes at the last” sobre a mesma melodia da segunda estrofe (“Royalty and Dignataries”), anunciando o fim da canção;

15:40 Volta-se ao tema de abertura da canção (em G-Gb-E-D-E etc.), em andamento ligeiramente mais acelerado;

16:05 Já muito avançada a canção, próximo ao seu desfecho, é introduzida uma nova melodia, com base em Em-D-C-D (a mesma que servirá de base para o riff que abre a canção), que canta os versos “Here lie their dreams as they stand in the sun /On the ground where they built, and the engines they run /To the moon and the stars, now what have we done? /Oh the dreamers may die, but the dreams live on”;

17:00 O piano introduz uma variação da melodia que acompanhava os versos de abertura da canção (“To ride the storm etc.”). Todas as retomadas, desde 15:11, apontam para o desfecho da canção;

17:15 Sobre um andamento lento e solene, entra a voz, cantando as últimas estrofes da canção, à guisa de coda:

Now a shadow on a hill, the angel of the east
The empire of the clouds may rest in Peace
And in a country churchyard, laid head to the mast
1840 souls, who came to die in France


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3 comentários:

  1. Na minha modesta opinião, essa música é uma obra-prima definitiva da História do Iron Maiden.

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  2. E só para lembrar "Rime..." foi a mais longa música do Maiden por trinta anos e não vinte como está no início da matéria.

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  3. Um pequeno erro no texto, ao final:

    está escrito "1840 souls, who came to die in France", sendo que o correto é "8 and 40", totalizando 48.

    é uma forma diferenciada de se falar os números, usada em alguns idiomas até hoje, como no alemão (48 = achtundvierzig)

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