Bruce Dickinson: Entrevista para a CBC, sobre sobreviver e se manter ativo


Em entrevista à rádio CBC, Bruce fala sobre seus problemas de saúde, sobre o novo álbum e sobre os planos futuros com o Maiden.

O entrevistador começa perguntando sobre o novo Ed Force One, o Boeing 747 Jumbo, que levará a banda em turnê. Bruce fala, com paixão em seus olhos, que este avião é tão incrível que é conhecido como “Rainha dos Céus”, e que ele não deixaria que ninguém o pilotasse em seu lugar.

Perguntado se é relaxante voar após um show, ele explica que existe um tempo de intervalo, porque o avião demora para ser carregado com o equipamento, e que passa por processos de verificação e segurança, e que isso geralmente se dá pela manhã do dia seguinte, quando ele e os amigos ainda estão dormindo. Dependendo de seu horário, vão partir por volta de meio dia, até mesmo porque, pelas regras da aviação civil e comercial, ele precisa ter doze horas de repouso antes de pilotar (e estar no palco é considerado como ‘em trabalho’, neste caso). Ele diz que chega ao hotel por volta de meia noite, e que, de qualquer modo, após um show ele está muito exausto para pilotar.

O entrevistador fala sobre o fato de Bruce ser conhecido por suas outras muitas atividades “chegando perto de ser um esgrimista olímpico.”

“Por que você disse perto?”, Bruce brinca. “Isso foi há muito tempo.”

Bruce se define como um entertainer (na tradução, ‘apresentador, humorista, aquele que entretém as pessoas).

“As pessoas torcem o nariz para isso, como se fosse algo feio, sem importância. Mas não. Quero dizer, Shakespeare era um entertainer. E eu gosto muito de poder entreter as pessoas.”

O apresentador menciona que o Maiden incluiu uma grande variedade de assuntos em The Book of Souls, e pergunta o que Bruce queria dizer neste álbum, o que queria expressar nele.

Bruce diz que não entraram em grandes conceitos, como este álbum, mas que expressaram o que se passava em seus próprios mundinhos. Ele ainda acrescenta que, neste álbum, os temas foram mais ‘pessoais’, como em, por exemplo, Tears of a Clown. Bruce diz que, quando a cantou, não fazia ideia de sobre quem ela falava. Sabia que era sobre alguém ou algo, mas não sabia quem. Ele então perguntou a Steve sobre quem era, e Steve disse que era sobre Robin Williams. Diz ainda que foi uma novidade para ele, porque Steve geralmente não é tão específico quando compõe, é geralmente bem evasivo, tipo ‘é sobre um cara se sentindo estranho’. Bruce diz ainda que não gostaria de falar muito sobre Tears, porque é uma música do Steve, são as palavras de Steve, ele apenas as canta, então Steve é quem deveria ser a pessoa a falar da música.

O apresentador fala que 2015 foi um ano muito importante para Bruce, não apenas pelo novo álbum, mas por ter sido diagnosticado com câncer, e que agora ele está livre da doença. Ele pergunta como Bruce está se sentindo hoje.

“Ótimo, estou ótimo, estou indo por aí, meus níveis de energia estão de volta, já tenho a minha licença de piloto comercial de volta, sem nenhuma restrição. Eu perdi alguns centímetros na área da cintura, o que não é exatamente ruim, embora eu não recomende como tratamento para perder peso. Mas, ei, apenas estou tentando achar um lado bom nisso. Estou ainda no processo de trazer meus sistemas de volta à ativa, coisas que geralmente não prestamos atenção, como saliva e muco, e que são muito importantes para cantores, e que foram ‘fritas’ na radioterapia. No meu caso, graças à incrível equipe médica que eu tive, e à tecnologia que está disponível, minha laringe não foi afetada de modo nenhum.”

Bruce brinca, dizendo que o médico disparou os raios da radioterapia como se fosse um atirador de elite.

“Agora eu entendo o motivo de ele querer ser um oncologista. Eu achei que seria deprimente, porque você tem que dar muitas más notícias para as pessoas, mas agora vejo que é meio uma mistura entre Sherlock Holmes e um sniper – o que é meio divertido.”

Bruce revela ter ficado fascinado pelo lado científico do tratamento.

“Sim, eu fiquei, até porque o que mais eu podia fazer pelas próximas nove semanas, quando ia estar cheio de quimio e radiação? Segundo, eu queria saber o que funciona, e como funciona, porque, na minha opinião, isso ajuda a fazer funcionar. Eu passei por um período, no começo, em que você sente pena de si mesmo, se sente miserável e deprimido, e vê o mundo de um jeito diferente. Por exemplo, invés de sair e prestar atenção a garotas bonitas e a pubs, você passa a notar cemitérios, igrejas e hospitais. Eu realmente me peguei fazendo isso, e disse para mim mesmo, ‘O que há de errado com você? O que está fazendo?’ Eu sei que você não consegue apenas parar de fazer isso, mas eu achei que devia ter um modo de pensar diferente. Um amigo meu me disse que um conhecido dele foi diagnosticado com algo parecido, e que haviam duas perguntas que você pode fazer. ‘Por que eu?’, e se você seguir por este caminho, vem o ‘pobre de mim, choradeira, enfim, e é uma descida em espiral que não te leva a nada. E a outra pergunta é, ‘Por que não eu?’ É como se dissesse, ‘Ok, isso é meio aleatório, não tem uma razão especial, mas alguém vai ter isso, e, por hoje, esse alguém sou eu. Preciso ir em frente e dar um jeito de me livrar disso.’”

“Por você estar na situação, e ter uma escala, e conviver com mais doze pacientes todos os dias, por um longo período, você tem uma visão dos efeitos colaterais que você pode ter. E você fica meio que, ‘bom, isso ainda não me aconteceu, então estou vencendo os efeitos colaterais.’ E os médicos lhe dizem, ‘Você está se saindo muito bem, mas você ainda vai se sentir pior.’ E eu, ‘é, eu sei, eu andei lendo sobre isso, isso acontece por volta da quinta semana’, e o médico, ‘possivelmente.’ E, de repente, isso acontece, e você se sente um lixo, ‘eu realmente me sinto muito mal’, e o médico ‘É, eu sei, mas você está se saindo muito bem.’ Mas você passa por isso, você sai dessa, eu tive muita sorte, porque eu nunca fumei, e isso aumentou minhas chances de cura em 20%, e as chances de nunca mais ter câncer em mais 20%.”
Bruce diz que seu médico lhe falou que já teve vários pacientes que continuaram a fumar, mesmo durante o tratamento.

“Eu não entendo isso. Eu realmente não consigo entender. São as vidas deles, as escolhas deles, mas, mesmo assim, eu não entendo.”

O apresentador lhe pergunta se suas experiências de vida com suas diversas atividades, entre elas ser frontman e piloto, o ajudaram a lidar com isso, de alguma forma.

“Provavelmente. Eu tentei ver isso pelo ponto de vista de um piloto, porque somos treinados a, por exemplo, você está num avião com dois motores, e um deles explode. Você ainda tem um funcionando. E você diz, ‘tudo bem, eu ainda tenho um motor.’ Você sempre tem um plano B e um plano C, você elabora um plano e vê se ele dá certo. E, se não funcionar, você volta e elabora outro plano, e vê se sesse funciona, e se temos o resultado que precisamos, e você continua lidando com a situação, até que fique sem planos – ou sem motores.”

“O que torna isso mais fácil é que você está seguindo um protocolo, você realmente tem algo para fazer. O que torna mais difícil são as outras pessoas próximas a você, família, amigos que sabem, porque eles não tem um objetivo a alcançar, porque não são eles na situação. Eles apenas observam e não podem dizer nada, não há realmente nada que possam dizer, não há muito que possam fazer. Eles podem ajudar um pouco, mas não podem efetivamente fazer nada para ajudar. E isso é muito duro. E, sabe, às vezes, você acaba dizendo coisas estúpidas, porque você fica irritado, porque sente pena de si mesmo, e as únicas pessoas com as quais você pode se irritar, mesmo sabendo que eles não tem culpa de nada, são as pessoas que estão próximas a você. E depois você fica, ‘Ah não, eu disse mesmo aquilo? Ah, eu queria não ter falado aquilo.’ Mas são as coisas pelas quais você passa, e é uma péssima experiência. Mas você sai dessa situação, e você diz, ‘Ok, passou, acabou. Você está curado, então vamos seguir em frente com a vida, em grande estilo.’”

“E, por grande estilo, você quer dizer uma grande turnê, um grande avião e muitos vôos?”

“Grandes vôos num 747”, Bruce diz. “Você podia, na verdade, escrever um roteiro de cinema sobre isso. Já estávamos falando do 747 antes mesmo de fazer o álbum; já planejávamos sair em turnê, e isso estaria acontecendo agora, o álbum teria sido lançado há meses, e já pretendíamos usar o 747 neste ano. Tudo isso ficou em suspenso quando eu fiquei doente. E assim que recebi o diagnóstico de estar completamente livre do câncer, em algum momento em Maio, foi como, ‘OK, tudo bem, vamos em frente a todo vapor!’ Os planos para o CD já estavam bem adiantados, e, após o resultado dos meus exames, passamos a nos focar na turnê. E eu brinquei, dizendo, ‘Isso parece um roteiro de filme, você não apenas se livra de um câncer, mas vai em turnê num 747’, é como dizer, ‘chupa, mundo!’, sabe como é? Eu tenho que dizer, é uma sensação muito boa.



“Falando sobre essa experiência, talvez seja o piloto em mim, mas eu pensei: ‘Existem vários resultados. Um não muito bom. E ele não é assim tão provável, então não vamos pensar nele, porque não vai levar a nada, e não há nada que eu possa fazer que tenha alguma influência sobre ele. É como dizer, ‘um motor explodiu’. E você diz, ‘Ok. Desligue o motor, apague o fogo e vamos em frente, porque ainda temos um motor.’ ‘O outro motor pode cair!’ ‘Sim, mas ainda não caiu, e não é provável que caia, a menos que façamos uma grande besteira, então vamos nos concentrar nas coisas que realmente podem acontecer, e evita-las’. É claro, uma das coisas era que eu poderia sair disso curado, mas não poderia mais cantar. E eu pensei, ‘Bem, é uma possibilidade’, e, naquela altura, eu não fazia ideia. Eu ainda não faço, eu não tentei cantar. Sei que a laringe não foi afetada, o que é ótimo, meu oncologista fez um ótimo trabalho. Eu não fui operado, não fizeram nenhum corte em mim. Mas houveram algumas mudanças por lá. As notas não foram afetadas, elas continuam lá. Então, eu preciso esperar que tudo esteja cicatrizado. Eu tenho cantarolado um pouco, sabe como é, e parece que está tudo certo. Minha médica me disse, ‘Você tem tentado cantar?’ E eu, ‘Sim’. E ela disse, ‘Ok, mas não faça mais isso, dê a você tempo para se recuperar, espere uns 2 ou 3 meses, deixe tudo cicatrizar.’ Ela ainda disse, ‘Talvez tenhamos que manda-lo para uma reabilitação vocal’, e eu disse ‘Legal, eu nunca tive uma aula de vocalização na vida, talvez eu possa aprender algo.’ Mas, você sabe, com este álbum, eu ficaria feliz se a última coisa que as pessoas ouvissem da minha voz fosse Empire of the Clouds. Não seria um modo ruim de dar adeus aos palcos. Mas não me entenda mal, eu não quero dar adeus aos palcos, vou estar neles com o Iron Maiden em turnê, muito obrigado, e cavalos selvagens não conseguiriam me parar.”



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