(EXCLUSIVO) Leia (em português) a introdução e alguns extratos do livro ‘Bruce Dickinson Insights’


A autora do livro Bruce Dickinson Insights, Brigitte Schön, liberou EXCLUSIVAMENTE PARA O IRON MAIDEN BRASIL a introdução de seu livro e alguns extratos da sua interpretação de algumas das músicas mais conhecidas da carreira solo de Mr. Air Siren. Leia, abaixo, a tradução.
Introdução
Aqueles que conhecem Bruce Dickinson sabem: este homem não faz nada pela metade. Desta forma, ele foi eleito como um exemplo vivo de pessoa sábia pela revista Intelligent Life, em 2009. Bruce é reconhecido como cantor, apresentador de TV, produtor musical, piloto e esgrimista. Na verdade, também é valido acrescentar apresentador de programa de rádio, novelista, mestre cervejeiro, empresário e palestrante. Portanto, não deveria ser surpresa que suas músicas se destacassem.
Bruce afirmou em uma entrevista, em 2007, que ele amava contar histórias através de suas músicas. Ele tinha certeza de que se houvesse ‘alguma verdade nas letras das músicas, se houvesse um significado por trás delas, então certamente é por isso que são interessantes. Inconscientemente você percebe que há algo a mais nelas do que apenas palavras.’ E é certamente muito mais satisfatório para um contador de histórias habilidoso como Bruce expressar seus pontos de vista e sentimentos usando uma linguagem vívida e metafórica.
A temática é desafiadora. Falando de modo geral, Bruce reflete sobre vida e morte, liberdade e destino, homem e Deus, sexo e religião. No álbum ‘Accident of Birth’, por exemplo, encontramos Aliester Crowley, o notório ocultista, e suas idéias. Alquimia e os poemas enigmáticos de William Blake são o tema do álbum The Chemical Wedding. Perguntado sobre a complexidade de suas letras, Bruce disse, em uma entrevista: ‘Eu tenho uma regra simples. Eu me pergunto, ela é boa? Se for, quem liga a mínima sobre o que ela fala? Toda a informação estará lá, se as pessoas quiserem procurar.’ Os tesouros que você pode encontrar definitivamente são dignos da procura. Bruce ainda acrescenta: ‘E se não quiserem (procurar), então não importa, desde que gostem (do álbum The Chemical Wedding).’ É claro que você não precisa entender as letras. Bruce Dickinson é um mestre do Heavy Metal incomparável; sua voz e músicas são uma força natural, de qualquer modo. Mas sua temática é extremamente interessante, e Bruce se sai muito bem em tocar no fundo da questão. É por isso que este livro é dedicado a Bruce, como compositor e como poeta de letras de música, algumas das quais são pequenas obras de arte – mesmo sem a música. Elas apontam para além de si mesmas por meio de um imaginário poderoso. Suas ambiguidades não são surpresa nenhuma. Todavia, elas são letras de música, não poemas. Então, a música, e às vezes os vídeos oficiais, são referenciados, se ajudarem a entender a interpretação.
A melhor maneira de se conhecer o verdadeiro Bruce Dickinson provavelmente é tomar uma cerveja com ele. Mas ele mesmo admite que, através de suas letras, ‘você pode certamente ter uma ideia do que se passa dentro da minha cabeça.’

Extratos do livro
Interpretação de Dive! Dive! Dive! (Tattooed Millionaire, 1990)
Dive! Dive! Dive! Conta a história de um submarino na guerra, usando palavras que se referem especificamente a este tópico. O capitão quer destruir o navio do inimigo; ele diretamente fala a seu inimigo ao afirmar, de modo confiante: ‘Este guerreiro irá afundar sua embarcação.’ (l.4) No começo, o periscópio é erguido, e o comandante tem apenas uma vista limitada. Então, o submarino desce às profundezas, onde não há escapatória; a embarcação está à mercê do destino. Mas a letra não deve ser interpretada literalmente; metaforicamente, essa música é sobre sexo. Falantes da língua inglesa percebem as implicações assim que Davy Jones e Seaman Staines aparecem (veja v. 2 e 3). Acredita-se que eles sejam personagens de Captain  Pugwash, uma série infantil que passou na BBC, pela primeira vez, em 1957. Muito depois rumores apareceram, afirmando que o programa abundava em conotações de cunho sexual. O criador da série, John Ryan, negou que essa foi a intenção; apoiadores afirmavam que não havia nenhum Seaman Staines; mas o rumor persistiu. Então você começa a enxergar a letra da música de outra maneira. O periscópio erguido passa a ter um novo significado, e ‘explodir a parte central de sua embarcação’ (l.5 e 19), neste contexto, é óbvio o bastante. O parceiro sexual experiente, o ‘velho cão do mar’ (l.11), irá mergulhar esta noite para satisfazer sua parceira. Há ainda numerosas metáforas para se descobrir nessa música. O interessante é que o ato sexual é descrito como uma espécie de luta. Ainda, é descrito como sendo um ato agressivo e animalesco – não um sexo gentil -, o que enfatiza sua intensidade.

Extrato da interpretação detalhada de Tears Of The Dragon (Balls to Picasso, 1992)
(...) Bruce queria provar do que era capaz, para ganhar respeito. Mas como ele poderia saber se seu primeiro álbum solo, seus dois livros, suas aparições em documentários da BBC, ou se seu posto de apresentador convidado da MTV foram apreciadas porque eram realmente boas? Ou foi seu trabalho respeitado apenas porque o nome do vocalista do Iron Maiden estava na capa? Talvez seja isso que Bruce pensou, entre outras coisas, quando mencionou: ‘Eu não gosto de ser famoso (...), isso só desvaloriza tudo.’ Você consegue tudo o que quer – merecendo ou não.
Ser piloto e esgrimista pouco tiveram a ver com seu trabalho como músico, então há uma chance razoável de que ele seria aceito como uma pessoa anônima. Mas isso não foi suficiente. Houveram muitas outras oportunidades para se aproveitar, uma vez que ele estava fora da rotina da banda. Bruce tinha que deixar o Iron Maiden se quisesse alcançar satisfação pessoal. Em Tears of the Dragon, nós temos a sensação de que ele achou essa uma decisão muito difícil.
(...) No refrão, Bruce descreve os sentimentos que ele teve uma vez que sua partida aconteceu. Ele mergulhou como que no desconhecido (‘o mar’ sendo uma metáfora para a vida e o futuro) – um passo do qual ele estava temeroso durante todo o tempo, anteriormente. Para superar seu medo ele teve que se deixar cair; deixar que a onda o levasse. A personificação do dragão ilustra que a separação e a maneira em que ela aconteceu significou algo muito profundo para Bruce. É bem sabido que animais, e entre eles, o dragão (mesmo sendo um animal imaginário), são incapazes de chorar. O fato de um animal tão poderoso e feroz como esse derramasse lágrimas enfatiza o conflito interior de Bruce. Ainda mais, o dragão é um símbolo da natureza indomável, caos e sabedoria oculta – o próprio inconsciente. Com as lágrimas, o inconsciente se torna manifesto. Todas as intenções e propósitos referentes a seus colegas de banda (e talvez para com os fãs, também), e para consigo mesmo ficam aparentes quando ele afirma na música que o dragão chora por ambos.
Extrato da interpretação de Solar Confinement (Skunkworks, 1996)
Após a queda de uma bomba atômica na canção anterior, Bruce descreve os efeitos cataclísmicos mais precisamente em Solar Confinement. O título levanta associação com ‘confinamento solitário’ por causa de sua similaridade fonética.
(...) O sol representa a explosão nuclear, nessa canção; os processos da fusão em uma bomba são os mesmos que os do sol: hidrogênio se fundindo com hélio. Mas o ‘desastre solar’ (refrão) é ambíguo. O personagem da música deve ser um dos cientistas nucleares, talvez o próprio Robert Oppenheimer. Ele declina de toda a responsabilidade pelo desastre. Ainda assim, ele passa dia e noite no inferno de sua própria consciência, que é expresso por uma metáfora poderosa metáfora nas últimas linhas do primeiro verso. O cientista é representado como uma criança solitária; isso marca sua ingenuidade. As associações evocadas pelo título por si só nos fazem pensar em solidão e em aprisionamento, e são revisitadas neste verso. O cientista na música é uma espécie de sonhador, criando seu próprio pesadelo (...)
Extrato da interpretação detalhada de Taking the Queen (Accident of Birth, 1997)
(...) O título ambíguo já sugere dois temas principais: sexo e morte. Nós podemos interpretar que o ‘amante imortal’ (l.6) levou a rainha e, subsequentemente, a abandonou. Este príncipe tomou o cálice de imortalidade da rainha. Deste modo, ele não irá mais morrer, enquanto ela é condenada à morte. O príncipe não aparece como uma pessoa na música; apenas se menciona que ele deixou a rainha. Também podemos entender as coisas de uma maneira mais literal. A rainha é levada embora para o reino da morte por criaturas da noite. Figurativamente, isso significa sua morte, claro. De fato, um se passa depois do outro. Mas também há um jogo no qual ‘tomar a rainha’ é usado: o xadrez. Considerando isso, podemos assumir que há uma estratégia por trás da ação como um todo. Tudo o que acontece é planejado por um poder desconhecido, que coloca em ação a sedução da rainha para se obter apenas um objetivo: a morte da monarca e a destruição de seu império. Então, os acontecimentos não são acidentais; é um assassinato a sangue frio.
A música começa com uma pergunta. A audiência talvez, inicialmente, se sente intrigada, porque a pergunta parece ser diretamente endereçada. Invés de obter uma resposta, você percebe que está fazendo a pergunta a si mesmo. Para verificar se a rainha está mesmo morta, eles usam um espelho, para ver se ele fica embaçado, mas não há respiração. Na última linha do primeiro verso, entramos uma resposta ostensiva para a pergunta da primeira linha. O ladrão da respiração da rainha (outra metáfora para vida) é o vento do sul. Ele é o vento úmido, anunciador de tempestade, do verão passado (l.9). A estação simboliza o começo do fim. Uma rainha morta e os acólitos amedrontados no crepúsculo de velas tremeluzentes numa noite de tempestade: tudo isso contribui para uma atmosfera escura e assustadora. Música quieta e cantos gentis, no entanto, criam um contraste interessante.
(...) Bruce nos conta o conto da morte de uma rainha e seu reino inteiro, e estamos sentados na primeira fila, assistindo-a morrer.  Um sentido mais profundo pode aparecer se seguirmos as pistas que apontam para Aleister Crowley. O deus Ra-Hoor-Khuit, correspondente ao adulto deus egípcio Horus, ordena a seus exércitos que destruam o Mundo Antigo e criem um novo. (...)

Copyright 2015 Brigitte Schön. Todos os direitos reservados.


Sobre Michelle Sanches

Michelle Sanches

0 comentários:

Postar um comentário