Bruce Dickinson: Discutindo Metal e Mortalidade




Bruce Dickinson ainda não está acabado. Este é o fim de um dia de 12 horas de entrevistas, onde o vocalista do Iron Maiden esteve respondendo um batalhão de perguntas, a maioria referentes ao décimo sexto álbum de estúdio da icônica banda de heavy metal, The Book of Souls. Esta é uma tarefa que requere uma grande quantidade de paciência, ainda assim o cantor de 57 anos está visivelmente não cansado, excitado em passar a melhor parte de uma hora falando sobre sua paixão por música – e pela vida. Desde 1981, quando Dickinson se uniu ao Maiden, ele e seus companheiros de banda desenvolveram um estilo de heavy metal inimitável, girando primariamente ao redor de temas como batalhas entre vida e morte.
Enquanto os primórdios do Black Sabbath se engajaram ao tema da mortalidade com uma misantropia oscilante, o Iron Maiden o abordou com passos frenéticos, epicamente expostos em lendas de advertência, anunciados por Bruce, interpretando o papel de um profeta maníaco. O resultado foi um dos legados mais celebrados do metal, exalando a noção de glória e imortalidade que a maioria das músicas da banda retrata. Ainda assim, recentemente, os temas das músicas do Maiden, e o da maioria de seus companheiros, tem manifestado uma realidade inevitável. Os autores de narrativas da mortalidade que tem estado à frente do Heavy Metal nos últimos 50 anos estão enfrentando sua própria (mortalidade).
Falando apenas algumas semanas antes do último show, em Agosto, que ele interrompeu abruptamente devido a problemas de saúde, o frontman do Motorhead, Lemmy Kimilster, deu de ombros ao discutir sua própria permanência. “Muitos amigos meus se foram”, ele me disse, rindo. “Não é uma vida encantadora, mas é realmente uma de muita sorte. Eu tive umas duas doenças, no ano passado, mas elas não me mataram.” De modo similar, Bruce se refere ao seu câncer de garganta, diagnosticado em 2014, como apenas mais um obstáculo a ser superado. É claro que as notícias trouxeram preocupação, mas também ofereceram um vislumbre da determinação escancarada do heavy metal – bem como a do próprio vocalista.
Dickinson e Kimilster – bem como membros do Slayer (que em 2013 perderam o guitarrista fundador James Hanneman) e outros fundadores do heavy metal – encontraram a si mesmos em um certo tipo de encruzilhada. Comparado a gêneros como country, blues e soul, o metal ainda é uma forma comparadamente jovem. Embora certamente não estejam não familiarizados com a morte – tendo sofrido perdas trágicas de músicos influentes, como Cliff Burton (Metallica), Chuck Shuldiner (Death’s), e o guitarrista do Ozzy Osbourne, Randy Rhodes – o heavy metal não teve que enfrentar o envelhecimento, até o momento. E enquanto isso chegou para ficar, seus personagens principais continuam inabaláveis em sua indiferença sarcástica para com aquilo que tem sido por longo tempo um destino familiar para eles.
Dickinson, que foi declarado completamente curado alguns meses após seu diagnóstico inicial, é uma prova viva da artilharia poderosa de sua banda. Ele é um verdadeiro Renascentista do metal, e a enfermidade foi apenas mais um teste de sua resistência. Durante nossa recente conversa, a bem conhecida esperteza e charme de Dickinson estavam em ponto de bala, enquanto ele expressava seu entusiasmo pelo Maiden, pelo novo álbum e pela vida. Talvez isso tenha sido algo mais mordaz, uma dedicação imutável ao espírito de juventude que sempre o encontrará preparado, não importando o que o futuro possa lhe reservar.

Uma coisa que é imediatamente percebida em The Book of Souls é que o álbum aponta diretamente para a mortalidade. Essa direção criativa foi deliberada?

Eu acho que o Steve (Harris, líder do Iron Maiden, letrista principal e baixista) tem trabalhado nessa direção por algum tempo. Obviamente enquanto envelhecemos e mais de nossos amigos e colegas caem pela estrada – alguns deles de modo muito repentino e outros nem tanto – isso faz com que você pense, às vezes (risos). Tem uma certa melancolia generalizada prevalecente no mundo neste momento que tem a ver com a existência e o que significa ser um humano e o que significa estar no Oeste, em oposição a um grande número de pessoas que querem que o mundo volte para a Idade das Trevas, e o que você faz a respeito disso. Nós discutimos assuntos como esse em álbuns anteriores, como “For The Greater Good of God”. (Falando sobre) uma música como “Tears of a Clown” na qual, de maneira incomum para Steve, ele foi bem específico: ”The smile it beamed or so it seemed/ But never reached the eyes, disguise/ Masquerading as the funny man do they despise.” Eu perguntei a ele: “Algumas dessas palavras são um tanto pessoais, Steve. Sobre o que são?” E ele apenas disse, “Oh, é sobre Robin Williams”, e eu falei, “Ah, bem, você não voluntariou esta informação antes de eu ter cantado a música, sabe.” (risos)

É claro que você também tem “Empire of the Clouds”, que além de ser a música mais longa que vocês já fizeram, também é uma composição muito diferente do estilo do Maiden, embora ainda aborde temas familiares, como morte e mortalidade. Qual a história nela?

Tudo começou quando eu ganhei um piano em uma rifa. (risos) Eu o coloquei na sala de estar e comecei a brincar com ele. Eu escrevi o que seria a introdução para uma música sobre batalhas aéreas na Primeira Guerra Mundial. Aquela música se tornou “Death or Glory”, então eu fiquei com aquela espécie de introdução sem nenhum destino em especial. Eu pensei, bom, é uma pena perde-la. Eu imagino como poderia aproveitá-la. Com o interesse específico que eu tenho por aeronaves, a história e seu uso moderno – eu pensei, há uma grande história a ser contada sobre a trágica perda da maior aeronave do mundo, em 1930, algo que tem ficado esquecido com o passar do tempo. Mas eu fui a uma reunião sobre algo na House of Parliament, e estava ali, na minha frente, esta exibição sobre a perda do velho 101 e uma placa de bronze presa aos pés de um dos mais antigos e históricos prédios do país, celebrando a morte do 101. Todos os corpos estão sepultados no local, e foi feito um funeral de Estado para eles. Foi uma tragédia de proporções quase sem paralelos, e ainda assim ela foi obscurecida pela perda do Hinderburg, porque o Hinderburg foi filmado. Então decidi escrever a música. Assim que comecei a escrever a história do último dia e do primeiro e último voo do dirigível, eu percebi que seria uma peça um tanto longa. Eu queria resumir todos os diferentes humores - o suspense, a antecipação, o triunfo, a excitação, a pressa, a tragédia e a esperança e o final irônico.

O que traz de volta o tema da mortalidade. Ela tem sido base para o heavy metal desde o começo, e muito tem sido feito através deste tipo de histórias contadas.

Você volta aos álbuns do Sabbath original, ou os álbuns do Led Zeppelin original, e coisas assim – uma grande parte do material ali é sobre morte. Particularmente, o primeiro álbum do Black Sabbath, com “Behind The Wall of Sleep” e tudo mais. E o Motorhead tem cantado músicas sobre a morte desde o momento em que começaram, e eles ainda não estão mortos. Eu acho que provavelmente isso não é algo em que eu pessoalmente me estabeleceria. Mas acho que isso é algo com que talvez Steve se identifique um pouco mais do que eu. O que é estranho, porque eu sou aquele que fez radio e quimioterapia! (risos) Mas o que eu acho que aconteceu é que as pessoas que estão bem, de fato, estão mais preocupadas com as pessoas que não estão bem do que as pessoas que não estão bem (se preocupam consigo mesmas).

Olhando para sua experiência recente com a realidade com aquele diagnóstico do ano passado, isso é algo que você vê agora como uma renovação do espírito e da energia que te guia?

Ah sim. Acho que eu não me importava com isso quando era um álbum, uma turnê, um álbum, uma turnê, de cada vez. Mas quando eu fui diagnosticado com essa coisa, eu achei levemente irônico que a primeira coisa que eu fiz foi pegar duas agendas que se referiam a datas de uns dois anos no futuro e risquei todas as páginas. Tudo mudou naquele momento. Nós tínhamos planos de sair em turnê neste ano e Deus sabe o que iria acontecer ano que vem e em diante, e eu apenas disse, “Quer saber? Vamos cancelar os próximos dois anos, até eu me livrar disso.” Nada parecido nunca havia acontecido comigo, nada nessa escala. E o resultado que aparece quando você se liberta disso, é que você pensa: Quer saber? Vou pensar no que poderia ser legal de fazer nos próximos dois ou três anos, e se isso acontecer, ótimo então, mas por enquanto vamos apenas nos concentrar nos próximos seis meses.
Quando eu me consultei com a Otorrinolaringologista que me deu oficialmente a má notícia de que eu tinha câncer no pescoço, isso foi interessante, porque antes de ir lá, eu já sabia o que estava errado comigo porque me disseram por telefone que eu tinha um carcinoma celular escamoso no nódulo linfático. Eu sabia o que isso queria dizer. Então eu fui me sentindo meio estranho, como em um estranho outro mundo, como “Espera aí. Eu estou em algum outro lugar. Eu estou, na verdade, sonhando. Eu irei acordar e isso não vai ser real.” Mas é claro que era real, então eu fui e me sentei no consultório dessa senhora, e ela me disse “Eu tenho aqui um laudo que diz que você tem câncer no pescoço,” e eu pensei: Bem, isso responde minha pergunta. É assim que você dá a notícia (risos). Para o que eu disse: “Sim, eu sei. A pergunta é, o que é isso? Onde está? O que faremos a respeito?” E ela disse: “Oh, bem, você tem planos?”, e eu disse “A partir deste momento, meus planos estão cancelados. A partir deste momento, minha ocupação de tempo integral é me livrar disso. Então, como devemos começar?”

O status mais amplo e culturalmente aceitável do heavy metal é algo que você considera interessante, considerando a pura reação que muitas bandas do gênero experimentaram nos anos 70 e mais especialmente nos anos 80?

Nunca me importei se, agora ou no passado, fomos vistos como sendo incrivelmente rebeldes ou anti-autoritaristas ou o que seja. A banda tem sido quase inteiramente sobre a música, e contar histórias, e expressar aquela energia explosiva que vem com a juventude. Não em tentar manter a energia, mas tentar tirá-la de algum lugar – ao contrário de sair alardeando por aí coisas como “Eu estou geralmente irritado com qualquer coisa e com autoridade, em particular.”
Há muitas bandas que fizeram isso que nunca mais ouvimos falar. O segredo é armazená-la, e então tentar manter essa energia disparando o máximo possível, enquanto adquire mais e mais peças musicais e habilidades e experiências, para que possa fazer isso da maneira mais eficiente possível. Agora, obviamente, não somos mais tão inocente quanto éramos quando mais jovens, e essa falta de ingenuidade leva a outros temas. Você não pode escrever músicas exatamente como teria escrito vinte anos atrás, porque as coisas mudam, e você seguiu em frente um pouco. Você fez essas músicas no passado, e então agora tem outras bandas que estão vivendo aquele momento, de sua própria maneira em algum ponto de suas carreiras. Deixe que eles carreguem a tocha. Isso é meio estúpido. Seria como eu entrar em uma competição com os meus filhos. Por que eu competiria com meus filhos?  Exceto pelo fato de que eu realmente gosto de competição, qual o grande problema? Estou fazendo meu próprio trabalho. Eu já estive naquela jornada, e agora é a vez deles de ir em suas próprias jornadas através dos vários estágios de suas vidas.


Fonte: the Record

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